No início de 2026, o escritor, filósofo e docente universitário açoriano Onésimo Teotónio de Almeida foi agraciado com o Prémio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural, distinção organizada pela Estoril Sol, dotada de 20.000 €, entregue a personalidades que promovem, por força da razão e da palavra, a cultura da língua portuguesa além-fronteiras.
Com quase cinco décadas radicado nos Estados Unidos, desde que se instalou ali em 1972, com uma bolsa da Universidade de Brown, Onésimo é uma figura determinante na criação do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros, do qual foi diretor entre 1991 e 2003. O júri presidido por Guilherme d’Oliveira Martins enalteceu “a sua persistente ação enquanto professor e investigador de prestígio com provas dadas nos domínios do estudo e consolidação da língua, da literatura e da cultura portuguesas, em especial nos Estados Unidos da América”.
A sua obra é heterogénea e vasta, abrangendo ensaios, crónicas, contos, teatro, poesia e edição académica. Destacam-se títulos como O Século dos Prodígios (2018), A Obsessão da Portugalidade (2017), Na Senda de Fernão Mendes (2013), Diálogos Lusitanos (2024) e José Enes – Filósofo, Pedagogo e Mestre (2025).
Um ilhéu a pensar o mundo português
Nascido em 1946, no Pico da Pedra (São Miguel, Açores), Onésimo encarna a diáspora iluminada que perpetua e reinventa a cultura portuguesa além-fronteiras.
Essa dimensão transatlântica está presente em A Condição de Ilhéu (2017), coordenada por Roberto Carneiro, Onésimo Teotónio de Almeida e Artur Teodoro de Matos, publicada pelo CEPCEP da Universidade Católica Portuguesa.
A Condição de Ilhéu reúne mais de 60 autores em 691 páginas, concebidas para interpretar a “alma dos povos lusófonos e atlânticos que partilham a condição comum de ilhéus”. A obra é interdisciplinar, combinando ensaios literários, estudos antropológicos, reflexões musicais, filosóficas e sociológicas. Destacam-se temas como “Ser Ilhéu” e “Insularidade e Identidade”, que exploram as tensões entre a ligação à terra e a força centrífica da diáspora atlântica, com capítulos dedicados à experiência açoriana.
A componente artística é valorizada, com mitos, lendas, música e criação literária, incluindo o meu artigo “Cabo Verde nha testemunha”, que explora a morabeza e os músicos cabo-verdianos, fruto da minha presença, do meu convívio e imersão nesta cultura que me apaixona. O resultado é um coro polifónico que reflete a condição insular com densidade cultural e emocional.
O orgulho de um convite que atravessa gerações
Enquanto amigo e admirador do ex‑ministro da Educação Roberto Carneiro, senti um enorme orgulho ao ser convidado para colaborar neste volume — com o capítulo “Cabo Verde nha testemunha”, onde realcei a música, os músicos, os poetas deste lugar da morabeza. Esse convite foi, para mim, um gesto editorial e profissional que reconheceu o valor da causa que partilhamos: destacar a cultura dos ilhéus e da presença cultural portuguesa no mundo.
Participar em A Condição de Ilhéu significou cruzar identidades territoriais e diásporas, chamando a atenção para experiências históricas e afetivas de comunidades insulares e migrantes. Nesse panorama, Onésimo assume-se como mentor e farol cultural e o prémio agora recebido é mais do que merecido.
Este prémio distingue um percurso académico, literário, pessoal e comunitário. Homenageia um homem que fez do ensino, da crítica, do ensaio e da crónica uma forma exemplar de cidadania cultural. É um tributo ao “ilhéu” que, apesar do parentesco geográfico com os Açores, sempre marcou presença no palco literário e académico internacional.
Onésimo Teotónio de Almeida provou, ao longo de mais de cinco décadas, que a diáspora pode ser enriquecedora e promotora de aproximação cultural — um ideal que sempre defendeu e praticou com autenticidade.
Assim se escreve hoje a história de um ilhéu que atravessou o Atlântico não só geograficamente, mas culturalmente, fazendo da cidadania literária e filosófica um espelho do orgulho lusófono — e é também com imenso orgulho que celebro o convite do amigo Roberto Carneiro para participar num projeto que tão bem retrata essa condição — coletiva, interdisciplinar e ilustrativa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.