Há um momento na vida em que o corpo decide que está cansado de negociações. Para algumas mulheres, esse ultimato chega cedo demais, empurrado por doenças silenciosas que vão corroendo o bem-estar até se tornarem insuportáveis. A adenomiose – invasora teimosa e incapacitante que infiltra o músculo uterino, a istmocele – a cicatriz escondida de uma cesariana, que se transforma em nicho de dores e hemorragias e a endometriose – essa viajante clandestina que se pode espalhar por todo o corpo sem pedir licença – são três dessas forças que podem empurrar uma mulher, aconselhada pelo profissional de saúde que a acompanha, para uma decisão radical e irreversível: entrar em menopausa cirúrgica, muito antes do que o seu relógio biológico imaginou.
Quando a falta de qualidade de vida é real e diária, quando já se esgotaram opções cirúrgicas e terapêuticas e falamos de doenças em formas graves e infiltrativas, muitas vezes o recurso à histerectomia total [retirada do útero] com anexectomia bilateral [retirada dos ovários] é a solução que se segue, entrando assim a mulher numa menopausa cirúrgica precoce. Esta cirurgia não é apenas a retirada de órgãos. É a retirada abrupta de um sistema hormonal que, até então, trabalhou silenciosamente para manter equilíbrio, vitalidade e elasticidade. Quando se acorda de uma cirurgia destas, não se desperta só para a ausência física do útero e dos ovários, desperta-se para uma vida que inevitavelmente terá outros contornos.
É de extrema importância que se fale sobre tudo isto e se prepare as doentes para os problemas e dificuldades que podem surgir, uma vez que, muitas destas mulheres encaram esta cirurgia como um ponto de esperança e chegam até ela após anos de sofrimento e ausência de qualidade de vida. Importa sempre referir que a retirada do útero não trata a endometriose e é também necessário que estejam cientes que esta solução, que à partida extinguirá as dores excruciantes, vem com uma maior probabilidade de osteoporose, alterações cardiovasculares, impacto no metabolismo, problemas de sono, afrontamentos e perda de líbido e lubrificação. A pele, diário da passagem do tempo, perde firmeza, torna-se mais seca, mais sensível, como se tivesse envelhecido numa noite. Os músculos ressentem-se. A energia evapora-se. E lá está o cérebro, fiel mensageiro de tudo o que muda, a tentar acompanhar as oscilações hormonais que agora já não vêm em ondas, mas em ausência. E é precisamente nessa ausência que nasce também o chamado brain fog, essa névoa cerebral densa que se instala entre um pensamento e o seguinte. De repente, palavras simples parecem escapar por entre os dedos da mente, decisões do dia a dia tornam-se labirintos e a capacidade de concentração desaparece. Muitas mulheres descrevem-no como um cansaço mental persistente, uma lentidão que não corresponde ao ritmo da vida que continuam a querer [e a precisar] viver.
Há ainda outro lado que não se vê, que poucos falam e quase ninguém valoriza. A parte psicológica, tantas vezes tratada como nota de rodapé, mas que deveria ser título de capítulo. Porque entrar em menopausa cirúrgica precoce é também enfrentar uma redefinição abrupta da identidade: o que significa ser mulher sem ciclo? O que significa juventude quando o corpo acelera o relógio? Como se navega entre a sensação de alívio pelo fim de dores avassaladoras, de hemorragias incapacitantes, de limitações várias e a tristeza de um encerramento que não foi escolhido pelo tempo, mas imposto pela doença? Não esquecendo que, em muitos casos, este encerramento cirúrgico finda também sonhos reprodutivos, de primeiros ou segundos filhos, que permanecerão apenas no coração.
A adenomiose, a istmocele e a endometriose, quando levam a esta decisão, tornam-se também parte da história emocional. São doenças que corroem antes. Nos anos que antecedem a cirurgia, instalam-se dores profundas, cansaços inexplicáveis, inflamações constantes, dias que terminam antes de começar. E, quando finalmente chega a operação, é uma despedida forçada. Uma despedida do que se era, do que se podia ser e muitas vezes de expectativas que o corpo já não pode sustentar.
A vida reorganiza-se num novo ritmo e a menopausa deixa de ser só uma interrupção, passa a ser também um recomeço, embora marcado pela experiência de quem amadureceu antes do tempo, quase num estalar de dedos. Não se trata de romantizar a perda hormonal, nem de minimizar o impacto que ela tem na saúde, na pele, no corpo, no sono ou na mente. Trata-se de reconhecer que, quando a doença obriga a escolhas difíceis, o futuro não tem de ser um território de medo. Pode ser, com o apoio certo – médico, psicológico, familiar e social – um território de reconstrução.
E nessa reconstrução, ganham espaço pequenas e grandes mudanças que podem aliviar o peso desta transição abrupta. Ajustar a rotina de sono torna-se essencial porque um sono reparador ajuda o corpo a reencontrar algum equilíbrio. A alimentação, antes talvez guiada pela pressa, passa a pedir mais foco, qualidade e intenção. O movimento transforma-se em aliado: exercícios de força para proteger os ossos e preservar massa muscular, caminhadas ou treinos cardiovasculares para apoiar o coração, alongamentos e práticas como ioga ou pilates para melhorar a flexibilidade, o humor e reduzir a ansiedade são uma necessidade. Cultivar espaços de lazer e prazer não pode ser considerado um luxo. E, acima de tudo, aceitar o apoio que existe: terapêutica hormonal de reposição, quando indicada, acompanhamento psicológico, grupos de partilha e conversas honestas com quem se ama. É nesta combinação de ciência, autocuidado e relação que a mulher pode reencontrar a sua força e construir uma vida que, embora diferente, continua profundamente sua. E, pouco a pouco, estas escolhas deixam de ser apenas estratégias de gestão de sintomas e tornam-se formas de reivindicar presença na própria vida. Ao reorganizar prioridades, ao permitir-se desacelerar ou reinventar-se, a mulher cria um novo território interno onde cabe tanto a vulnerabilidade quanto a força. E talvez seja isso que mais importa dizer: que cada mulher que passa por uma menopausa cirúrgica precoce não está só a envelhecer prematuramente. Está, muitas vezes, a salvar-se.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.