Nos últimos dias, o País assistiu a um episódio que diz muito sobre o estado da comunicação em saúde. O IPO de Lisboa anunciou obras urgentes num corredor degradado depois de um vídeo ter ficado viral nas redes sociais, chegando rapidamente à comunicação social. Para quem trabalha na área de comunicação em saúde, este caso é revelador: as palavras certas podem mudar prioridades, desbloquear soluções e melhorar o caminho de quem vive com uma doença oncológica.
Aquele corredor estava degradado muito antes da polémica surgir. Era percorrido diariamente por muitos doentes, profissionais, famílias e redes de apoio. No entanto, há uma diferença profunda entre “ver” e “ser visto”. Um problema pode ser reconhecido internamente durante anos, mas só se torna prioritário quando a visibilidade pública o transforma num compromisso. Foi exatamente isso que aconteceu. A comunicação deu-lhe palco, urgência e narrativa, convertendo algo silencioso e invisível numa questão incontornável.
Para um doente, sobretudo oncológico e a respetiva rede de apoio, um corredor degradado é muito mais do que um detalhe. Um ambiente deteriorado agrava a sensação de vulnerabilidade, transmite desinvestimento, insegurança e fragilidade institucional. É tudo aquilo que um hospital não deveria ser. Quando uma instituição decide agir após uma exposição pública está a transmitir uma mensagem clara: reconhecemos o problema, assumimos responsabilidade e queremos melhorar a experiência de quem aqui entra.
Este episódio sublinha a importância da comunicação em saúde e o impacto real que pode ter na qualidade de vida dos doentes. Evidencia também a resiliência institucional. Quando algo negativo se torna viral, existem sempre duas opções: tentar esconder o problema ou enfrentá-lo com coragem. A capacidade de transformar uma crítica pública numa oportunidade de melhoria revela maturidade e demonstra que uma instituição é capaz de ouvir, refletir e agir. A verdadeira resiliência não consiste apenas em suportar o escrutínio, mas em evoluir por causa dele.
Dizer que tudo começou com um vídeo é simplificar demasiado. Este caso resulta de anos de necessidades internas, de equipas que conhecem bem os constrangimentos dos espaços que utilizam e de doentes que convivem diariamente com realidades que não refletem a dignidade que merecem. O vídeo foi apenas o ponto de viragem, o momento que trouxe luz a um problema antigo. A comunicação social amplificou essa luz. E a decisão de avançar com obras devolve esperança a quem mais precisa.
A conclusão é simples, mas essencial: comunicar na área da saúde também é cuidar. A comunicação não é um adorno institucional. Na verdade, pode ser uma ferramenta de impacto real. Quando damos visibilidade ao que importa, protegemos os mais vulneráveis. Quando ouvimos críticas e respondemos com ações, construímos confiança. Quando uma instituição assume fragilidades e corrige o que está errado, aproxima-se das pessoas que serve. E quando um corredor é renovado porque alguém teve coragem de mostrar o que via todos os dias, isso não é polémica: é progresso. É a comunicação a cumprir a sua missão mais nobre: mudar vidas, uma realidade de cada vez.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.