Em 20 de novembro de 2015, nascia José.
Como a generalidade das crianças da sua idade, José brinca, vai à escola, cresce.
Para qualquer criança, a escola é uma referência fundamental de aprendizagem, convivência, socialização e desenvolvimento. Um ambiente escolar seguro vai muito além da integridade física: inclui também segurança emocional (o sentir-se acolhido) e segurança social (o sentir-se parte do grupo).
No dia 10 de novembro de 2025, José perdeu parte de dois dedos da mão, amputados por colegas na Escola Básica de Fonte Coberta, em Cinfães, no Distrito de Viseu.
Ele ia a caminho da casa de banho quando dois colegas o seguiram, fecharam a porta sobre os seus dedos e pressionaram até amputá-los. Todos os envolvidos são crianças de nove anos de idade. Segundo a mãe de José, a criança já havia sido alvo de outras agressões, reportadas à escola e, contudo, ignoradas.
Mas já que falamos de dedos, permitam-me voltar aos anos 90 do século passado. Eu estava na sala de aula quando um colega, o Márcio, indignado por ter sido repreendido pela professora, ergueu-lhe o dedo do meio. Márcio tinha, como José, nove anos. Ele foi imediatamente retirado da sala e encaminhado ao Diretor.
A correção veio rápido: suspensão de um dia e o dever de pedir desculpas públicas à professora e à turma. Os pais do Márcio, visivelmente envergonhados, estiveram presentes. Apoiaram o filho, sim, mas nunca deixaram de reconhecer a gravidade da atitude: “Nunca mais se repetirá”, disseram. E não se repetiu.
Independentemente do que se passou no caso do José, uma vez que as circunstâncias serão (certamente) apuradas, é de salientar que a indiferença da escola em Cinfães, o silêncio dos pais e a omissão quase total da comunicação social são, por si só, alarmantes.
Então crianças de nove anos perdem parte dos dedos das mãos dentro de estabelecimentos escolares em Portugal e o assunto é ignorado e tratado como um “mero incidente” ou “uma brincadeira infeliz”, “um ato pontual”?
A verdade é que casos como o de José não acontecem de forma despretensiosa. Quem viu a série Adolescência reconhecerá com facilidade este retrato perturbador e cada vez mais recorrente do quotidiano escolar. O enredo versa sobre um grupo de jovens envolvidos em intimidações, pequenas violências e num contexto de negligência dos adultos, até que tudo culmina em tragédia: o protagonista de treze anos acaba por matar uma colega da escola, após uma sucessão de sinais ignorados por todos.
A série Adolescência retrata diversas situações escolares em que as agressões dos alunos são normalizadas e tratadas como “fases”, “impulsos”, “etapas inevitáveis”; em que os adultos responsáveis “sabem”, mas “não querem ver”; em que o silêncio institucional e a omissão de familiares são coautores do crime praticado pelo protagonista.
A série ficciona, mas a situação do José foi verdadeira. E na vida real não há câmaras, nem roteiros, nem segunda temporada: há uma criança de nove anos a perder parte dos dedos dentro de uma escola. E há adultos (membros da direção, professores, pais, comunidade) que parecem ter escolhido ocupar o papel mais confortável: o de meros espetadores.
A escola de José falhou. Falhou na prevenção, falhou na resposta, falhou no dever de cuidado. Tolheu a confiança da criança num espaço que deveria ser seguro e acolhedor.
“E agora, José?!”
É certo que crianças brincam, discutem, testam limites. Mas é absolutamente inadmissível que José, uma criança de nove anos, tenha ficado para sempre sem parte de dois dedos.
“E agora, José?!”
É preciso também falar dos pais: amar não é encobrir. Não reconhecer os erros dos filhos não os protege, apenas lhes retira a chance de aprender e crescer. Educar é orientar, não negar o erro; é ajudar a enfrentá-lo com responsabilidade e empatia.
“José, e agora?!”
Uma comunidade escolar só funciona quando os adultos veem, assumem e intervêm. Quando se destituem desse papel, são as crianças que sofrem: algumas com medo, outras com traumas e outras, como o José, com marcas que nunca desaparecem.
“Você é duro, José!”
Em 20 de novembro de 1989, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Convenção sobre os Direitos da Criança.
Quis o destino que José nascesse justamente num 20 de novembro: o mesmo dia em que foram reconhecidos, formalmente, a dignidade e os direitos das crianças. Ironia do destino, José?!
“Sozinho no escuro, você marcha, José!
José, para onde?”
* Os versos utilizados foram retirados do poema “José” de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente em 1942, na coletânea Poesias.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.