Nos últimos tempos, Portugal tem se deparado, repetidamente, com notícias difíceis de assimilar: episódios graves de bullying nas escolas, agressões entre adolescentes, menores que violam menores e, como infelizmente sabemos, um filho de apenas 14 anos que matou a própria mãe. A comoção é imediata, mas também é reveladora de algo mais profundo. Estes casos chocam-nos porque parecem excecionais, mas fazem parte de um padrão crescente de violência juvenil que não podemos continuar a ignorar.
O bullying deixou há muito de ser “coisa de escola”, um ritual de passagem ou um teste de força entre pares. Esta prática, hoje, assume formas persistentes, repetidas e frequentemente amplificadas pelas redes sociais (atente-se ao caso da divulgação do vídeo da violação de uma menor pelos seus pares, também eles menores, com milhares de visualizações). A agressão já não termina quando o aluno sai pela porta da escola: continua de forma simbólica no grupo de WhatsApp, no jogo online, no vídeo partilhado no TikTok. A humilhação tornou-se pública, permanente e viralizável. E, no entanto, por mais perturbadores que sejam estes acontecimentos, talvez a pergunta mais urgente não seja “como é que é possível?”, mas sim: o que está a acontecer com as nossas crianças? Porque crianças que batem, humilham ou matam não surgem de vácuos morais. Elas aprendem, observam, absorvem e replicam cruelmente.
Esta teia digital onde vivemos é terreno fértil para a agressividade. Nos jogos online, a linguagem hostil circula com naturalidade; nas redes sociais, a exposição constante cria ambientes onde a impulsividade e a desumanização é paisagem de fundo; e até no quotidiano, nas conversas apressadas, na impaciência e nos pequenos gestos que carregam cansaço, os adultos acabam por modelar, muitas vezes sem intenção, formas subtis de violência verbal, emocional e relacional. Se as redes sociais são os novos recreios, então ninguém está a vigiá-los e, consequentemente, estamos a deixar que as crianças cresçam num território selvagem que molda comportamentos, afetos e perceções.
Ao mesmo tempo, as famílias vivem numa espiral de exaustão, algumas escolas lutam para responder a desafios que vão muito além do pedagógico, e a valorização das competências emocionais continua a ser vista como “complemento” e não como necessidade básica. Mas a verdade é simples: a violência nunca começa no dia do ato. Começa bem antes, silenciosa, acumulada em microagressões, frustrações não reguladas, emoções não nomeadas, relações não cuidadas. O “muito” que hoje se dá às crianças é muito pouco para que elas possam compreender a importância de respeitar o outro.
Mais do que procurar culpados individuais, o que obviamente é fundamental, precisamos de assumir responsabilidades coletivas. Como família, como escola, como sociedade. É necessário ensinar empatia com a mesma seriedade e rigor com que ensinamos matemática, de integrar, de forma sistemática, habilidades socioemocionais no currículo, de regular melhor os ambientes digitais onde as crianças (e os adultos) passam tantas horas. E, sobretudo, de escutar: escutar sinais, escutar comportamentos, escutar silêncios. Por este motivo, os casos recentes não podem ser apenas manchetes desoladoras, devem ser alarmes: onde estamos a falhar?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.