Filho da cineasta Mira Nair e casado com a artista sírio-americana Rama Duwaji, Zohran Mamdani é o novo mayor de Nova Iorque. Um socialista de 34 anos, muçulmano, nascido no Uganda, que aprendeu com a mãe a filmar o mundo e com a mulher a redesenhá-lo.
Quando Mira Nair filmou Salaam Bombay! em 1988, o seu filho Zohran ainda não tinha nascido. Mas tudo o que viria a moldar o seu olhar talvez estivesse ali: o caos das ruas, os miúdos sem voz, a dignidade possível no meio da pobreza e a convicção de que o cinema, como a política, serve para devolver humanidade a quem o sistema esqueceu. Quase quatro décadas depois, o miúdo cresceu e fez daquelas imagens uma herança moral. Aos 34 anos, Zohran Mamdani é o novo mayor de Nova Iorque, o primeiro muçulmano a chegar ao cargo, o mais jovem desde o século XIX, e o que Donald Trump já classificou como “um comunista lunático”. O que não deixa de ser, no currículo americano, uma espécie de medalha de honra.
A sua vitória é improvável e simbólica: começou com 1% nas sondagens, venceu Andrew Cuomo, ex-governador e peso-pesado do Partido Democrata, e mobilizou mais de noventa mil voluntários numa campanha que misturou política de rua e guerrilha digital. Três ideias simples — autocarros gratuitos, congelamento das rendas e creches acessíveis — bastaram para o transformar num fenómeno popular. Não era só o que dizia, era como o dizia: direto, empático, divertido, filmado em vídeos curtos com um “Z” em fundo. Uma estética de movimento, não de marketing.
Mas o verdadeiro filme desta história começa muito antes. Mira Nair, a mãe, é uma das cineastas mais respeitadas da Índia e do mundo. Em Salaam Bombay!, deu rosto às crianças invisíveis; em Mississippi Masala, filmou o amor entre uma jovem indiana e um homem negro no sul dos EUA; em Casamento Debaixo de Chuva, transformou um casamento arranjado num retrato vibrante das contradições da sociedade indiana. Sempre à margem de Bollywood, sempre próxima da realidade. O cinema dela é o contrário do exotismo turístico: é político porque é humano. “Se não contarmos as nossas próprias histórias, ninguém o fará”, costuma dizer. Zohran cresceu a ouvir essa frase e a aplicá-la, anos depois, na política.
É fácil perceber de onde vem a sua visão do mundo. Nascido em Kampala, filho de uma indiana e de um antropólogo ugandês, cresceu entre África, a Índia e Nova Iorque, sempre entre culturas, sempre entre fronteiras. A política multicultural que hoje defende — inclusão, habitação, igualdade — não é programa partidário: é biografia. Cada uma das suas propostas tem o mesmo ADN da obra da mãe: dar voz aos que não cabem na narrativa oficial. E se Mira Nair sempre filmou o invisível, Zohran tenta agora governar por eles.
Ao lado dele está Rama Duwaji, 28 anos, a mulher, artista sírio-americana, ilustradora, designer e nova-iorquina por adopção. Conheceram-se no Hinge — sim moderno, um aplicativo de encontros — e casaram-se discretamente não muito antes da eleição. Durante a campanha, Rama ficou longe dos holofotes do marido, mas foi a mente criativa por trás da imagem de Zohran: o logótipo, as cores fortes (amarelo, laranja e azul), a iconografia de movimento. Enquanto os adversários o acusavam de “esconder” a mulher, ela desenhava a revolução.
O trabalho de Rama — exposto na BBC, no New York Times, no Washington Post e na Tate Modern — é um prolongamento artístico das causas do marido: Palestina, migração, desigualdade, resistência feminina. As suas ilustrações, quase sempre a preto e branco, retratam mulheres árabes, comunidades oprimidas e um mundo que se equilibra entre ternura e violência. “A arte é sempre política, mesmo quando finge que não é”, disse recentemente. É o mesmo princípio que orienta Zohran: a política é narrativa, e quem domina o enquadramento domina o poder.
Há uma coerência rara nesta tríade familiar. Mira Nair construiu uma carreira a mostrar o que o mundo preferia ignorar; Zohran aprendeu a dar voz a quem não é ouvido; Rama desenha aquilo que ainda não se consegue dizer. Entre a câmara, a palavra e o traço, formam um retrato improvável do novo poder nova-iorquino: multicultural, feminino, intelectual e empático, mas também combativo.
É cedo para saber se Mamdani conseguirá cumprir as promessas que o elegeram. A máquina que agora dirige tem 300 mil funcionários e um orçamento que ultrapassa o PIB de muitos países. As resistências internas serão ferozes. A imprensa de direita já prepara o guião da queda: cada falha do metro, cada crime nas ruas, cada decisão impopular servirá para provar que “o socialismo não funciona”. Mas, por agora, Zohran encarna o oposto de Trump: juventude, diversidade, empatia. É o retrato de uma América que ainda acredita que a política pode ser mais parecida com um filme da mãe e menos com um reality show de Trump.
No fundo, é esta a beleza da história: o novo mayor de Nova Iorque cresceu num set de filmagens, habituado a ver a câmara apontada para o lado certo. Aprendeu com Mira Nair que o poder de uma imagem é maior do que o de um discurso, e com Rama Duwaji que o design de uma ideia é tão importante quanto o seu conteúdo. Entre o cinema da mãe e a arte da mulher, Zohran Mamdani está agora a tentar filmar o seu próprio guião e, por uma vez, Nova Iorque parece pronta para o papel principal.
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