No período da Troika, foi tomada uma decisão estratégica, fruto das circunstâncias terríveis em que o País se encontrava: transformar o PSD num partido de orientação liberal de mercado. Pedro Passos Coelho simbolizou essa mudança para um PSD num espaço que vai do centro-direita até ao que hoje é ocupado pela Iniciativa Liberal (IL). Mas como o vento vem de oeste a grandes rajadas, o PSD tem-se deslocado para a direita, entrando no território “nativista” do Chega. E a pergunta fica: onde anda o PSD social-democrata?
A resposta é simples: está praticamente morto. Embora muitos membros do partido, destacados ou não, se reclamem herdeiros de Francisco Sá Carneiro ou de Francisco Pinto Balsemão – e do primeiro até na direita radical há quem se reclame reencarnação –, a verdade é que os fundadores do partido situaram, intencionalmente, o PPD-PSD no espaço do centro-esquerda, mais à direita do que o Partido Socialista (PS), mas no coração da social-democracia nórdica, com costelas liberais e da democracia cristã. Nas palavras de Sá Carneiro: “Nesse sentido pode considerar-se de centro-esquerda, ou de esquerda não marxista, se quiser.” Aliás, no Congresso de 1978, Sá Carneiro foi claro: “Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita”.
Havia, portanto, na fundação do partido preocupações sociais como condição genética, não como circunstância. Como afirmaria Sá Carneiro, “o que hoje procuramos fazer no Partido Popular Democrático [insere-se] numa linha de social-democracia que concilia a liberdade política com a igualdade social e económica”.
Desse modo, reconhece-se que o caminho fundacional traçado para o PSD passava pela social-democracia no seu verdadeiro sentido de reforma humanista do Estado, concentrado num mercado livre, porém regulado, impedindo o capitalismo selvagem; defensor das liberdades individuais, de uma igualdade não igualitária, porém de caminho para a mobilidade e ascensão social, e em que a economia fosse motor para uma sociedade mais justa. Em 1971, Sá Carneiro afirmaria: “Qualquer Estado moderno é inevitavelmente um Estado social, pois a nenhum poder politicamente organizado é hoje possível deixar de conformar-se com as realidades sociais e tomar a seu cargo a satisfação das necessidades coletivas.”
A morte de Sá Carneiro trouxe mudanças no partido. Com a entrada de Cavaco Silva na liderança “laranja”, o partido iniciou a sua marcha para a direita, com a Lei-Quadro das Privatizações (Lei 11/90) e a entrada na família do PPE em 1996, em termos europeus. O cavaquismo tornou-se, então, a mudança de trajetória em que a social-democracia começa a dar lugar a uma articulação neoliberal económica com tendências conservadoras morais, aceleradas com a liderança de Durão Barroso.
Com a entrada do governo de Pedro Passos Coelho, após o memorando de entendimento com a Troika, o PSD adquiriu uma dimensão pragmática neoliberal, ocupando um espaço mais concordante com o que hoje a IL ocupa. As reformas estruturais profundas foram no sentido de refundar o Estado por meio da privatização, da centralidade do mercado e da sua autorregulação.
Depois da era António Costa, num contexto internacional de viragem da austeridade e da adoção do progressismo moral e multiculturalista, Passos Coelho foi regressando a cena para pautar uma nova agenda para o PSD, marcadamente nativista, isto é, de nacionalismo cultural e identitário, com referências à família tradicional e aos perigos da “sovietização” (o dito “marxismo cultural”) e da imigração, adotando, ainda, referências à teoria da grande substituição. Passos Coelho sinalizou, assim, o conservadorismo moral radical do Chega como o rumo para o PSD.
Esse PSD tem tido eco através de Leitão Amaro (e não só), ao adotar toda a gramática nativista, ao falar em engenharia demográfica da esquerda para efeitos eleitorais, uma câmara de ressonância das mais fortes manifestações do radicalismo iliberal: a teoria conspiratória da grande substituição como um plano da esquerda para substituir eleitores nacionais perdidos para a direita por imigrantes.
Isto não é apenas abusivo como uma paranoia típica da direita radical. Convém recordar que Portugal adotou políticas de facilitação imigratória depois do período da Troika, quando Passos Coelho mandou os portugueses imigrarem e não serem “piegas”. Segundo, convém recordar, por exemplo, que muitos imigrantes brasileiros tendem a votar na direita, especialmente por via das ligações ao bolsonarismo.
Mas isso parece importar pouco numa economia de mercado eleitorado onde o que traz ganhos, hoje, é ser populista-nativista. Que o PSD tenha feito esse caminho consegue-se perceber; que o faça reclamando a herança social-democrata de Sá Carneiro ou liberal-humanista de Balsemão é puramente insustentável.
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