Recentemente, um vídeo começou a circular no meu telefone. Nele, uma portuguesa branca, com perto de 70 anos, insulta e tenta agredir uma mulher negra nas ruas de Lisboa, chamando-lhe “preta nojenta”. Chocante, sim. Surpreendente? De modo algum. Porque o racismo existe na nossa sociedade. É estrutural.
Custa aceitar, mas ainda há muitos portugueses racistas. É o mesmo negacionismo que esconde a existência de portugueses fascistas ou saudosistas do Estado Novo. Esta é uma das razões que faz crescer partidos que, sem pudor, dão voz pública, legitimando e alimentando estes sentimentos. O mesmo olhar que se recusa a ver o racismo entre nós é o que fecha os olhos à Palestina. Esse mesmo negacionismo encontra eco noutra frente: na recusa em reconhecer o genocídio em curso contra o povo palestiniano, com tantos a procurar justificar crimes de guerra e ações de terror de Israel, que na minha ótica representam o cúmulo da maldade humana.
Tudo isto é possível porque, em muitos casos, as pessoas só “prestam” quando falam e cuidam dos que lhes são próximos, iguais a si. Quando se trata dos “outros”, daqueles que não partilham da mesma cor de pele, cultura, religião ou origem, perdem toda a humanidade e “não prestam” para nada. E mesmo assim, continuamos convencidos de que somos as melhores pessoas do mundo.
Um país enganado
Enquanto isso, a pobreza não deixa de crescer, mas continuam a ganhar eleições os partidos que não têm qualquer compromisso real com a sua erradicação. Virou moda demonizar ou ridicularizar quem luta por justiça social. Basta ouvir os discursos de governantes na ONU. Não é preciso escutar todos. Basta comparar o de Lula com o de Trump para perceber o abismo.
A flotilha que leva ajuda humanitária a um povo faminto e em vias de extermínio foi atacada por Israel. Portugal tem três cidadãos a bordo. Mesmo assim, multiplicam-se nas redes sociais publicações e comentários de humor, e há até quem rejubile com a violência. É ódio puro. Sentimentos execráveis que geram em mim emoções que preferia não sentir. Será que não dá para entender que esta flotilha navega corajosamente rumo a Gaza porque os governos do Ocidente se abstiveram, eles próprios, de criar uma flotilha para quebrar o cerco a Gaza? Competia-lhes a eles. Não podemos admitir estarmos em tempo de cercar um povo e exterminá-lo com bombas e fome. Mas que realidade é esta, afinal?
Tenho conhecido gente fantástica ao longo da vida, e continuo a conhecer. Mas também reconheço em muita gente um desconforto profundo pela forma como sente, se expressa ou simplesmente se mantém apática perante o momento de abalo que Portugal e o mundo atravessam.
A urgência da escolha política
Estamos a caminho de eleições. As pessoas têm de reagir positivamente. Ganhar consciência da sua real posição na sociedade. Ter uma casa, um pequeno negócio, um ordenado razoável e garantido, não faz de ti um rico. Faz de ti um justo trabalhador. Não defendas nem votes em partidos que protegem os ricos na mira de vires a ser rico. Essa é a maior falácia. Não deixemos de ir às urnas, temos de ir unanimemente eleger quem luta declaradamente contra a pobreza e pela proteção dos mais vulneráveis. Essa é a melhor forma de assegurarmos o nosso bem-estar e a nossa estabilidade, para termos uma vida boa e tranquila. Precisamos de deixar de viver enganados, de achar que temos mais valor só porque tivemos o privilégio de nascer brancos, portugueses, com um salário digno, uma família estruturada ou uma herança. Esses privilégios perdem-se facilmente.
Sê humano. Abre os olhos. Deixa de consumir desinformação nas redes sociais.
Se te falta tempo ou vontade, faz o mínimo: não multipliques mentiras. Ouve quem lê, quem estuda, quem se dedica a compreender.
Há quem ande a pregar a paz enquanto defende a violência. Isso não faz sentido. Os governos que apoiam o investimento em armamento estão a desviar dinheiro que devia ser usado na luta contra a pobreza.
Se não consegues ser proativo na luta contra a injustiça e a desigualdade, pelo menos sê honesto quando confrontado com factos que te incomodam. Denuncia a injustiça. Denuncia o que te causa indignação.
Eu, no dia em que escrevo estas linhas, denunciei ao MP a atitude agressiva e racista filmada em vídeo, da senhora de quem falo no início. Porque não podemos tolerar nem normalizar atitudes como aquela. Não pode passar impune. Espero que, dentro da lei, o insulto e a tentativa de agressão na via pública sejam considerados crime público. Que a senhora seja chamada à responsabilidade, justamente punida, e que o caso seja notícia, não para alimentar o ódio, mas para nos obrigar a refletir sobre o país que somos e o que ainda nos falta ser.
O vídeo que motivou a escrita deste texto.
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