Diz-se muitas vezes que os portugueses têm o dom do “desenrasca”: esperamos que o problema bata à porta e, quando já não há volta a dar, encontramos uma solução, mesmo que seja improvisada. Esta característica, tantas vezes elogiada pela criatividade que revela, pode ser um risco quando aplicada a decisões financeiras de longo prazo, como o crédito à habitação.
Os números mostram isso com clareza. Portugal é, desde que há dados comparáveis, um dos países da Europa onde a maioria dos novos contratos de crédito à habitação é feita a taxa variável. Segundo o Banco Central Europeu, mais de 50% dos contratos em Portugal foram quase sempre celebrados neste regime, enquanto na média da zona euro a percentagem não costuma ultrapassar os 30% . Mesmo entre 2005 e 2008, quando a Euribor a 12 meses ultrapassou os 5%, os portugueses mantiveram-se fiéis à variável, aceitando prestações sujeitas a fortes oscilações.
Esse traço cultural pesou novamente nos últimos anos. Após sete anos de Euribor negativa, a subida das taxas de referência decidida pelo BCE a partir de 2022 apanhou muitas famílias desprevenidas. As prestações da casa aumentaram de forma abrupta, em alguns casos duplicaram, e o peso do crédito na vida das famílias tornou-se sufocante. Noutras geografias da Europa, onde a taxa fixa domina, o impacto foi mais limitado.
Perante esta realidade, o governo incentivou a comercialização de taxas mistas — com um período inicial fixo seguido de variável — e os bancos acompanharam a tendência. O resultado foi uma mudança rápida: em abril de 2023, cerca de 78% dos novos contratos eram a taxa variável, em dezembro de 2024 esse valor tinha descido para apenas 18 por cento. Contudo, com a descida da Euribor em meados de 2024, voltou a verificar-se uma inversão e em julho passado já se contratavam novamente perto de 24% dos empréstimos em taxa variável.
É legítimo que cada família faça as suas escolhas em função da sua situação, mas os números revelam que em Portugal existe uma tendência persistente para reagir apenas quando o problema já está instalado. Como no velho ditado “casa roubada, trancas à porta”, só depois do susto é que se procuram alternativas mais estáveis.
A questão que fica é se desta vez aprenderemos algo com a experiência. Se a memória for curta, corremos o risco de repetir o ciclo de desenrasque que tão bem conhecemos. Mas se houver espaço para mais planeamento e menos improviso, talvez possamos garantir que a casa dos portugueses não seja apenas um refúgio, mas também uma escolha financeira mais segura no futuro.
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