Quando o desemprego bate à porta, a resiliência é a chave. Cresci numa vila perto de Felgueiras, onde o futuro parecia traçado: trabalhar no calçado ou, com alguma sorte, seguir uma profissão liberal. Muitos dos meus amigos e até os seus pais passavam noites a coser sapatos por uns trocos extra, sem contrato nem segurança. É um facto que cresci com mais oportunidades do que a geração anterior, mas privilégio não é sinónimo de caminho fácil.
Aos 25 anos, com um mestrado em marketing político e alguma experiência profissional, decidi dar o salto e procurar o meu lugar no mercado. Tinha energia, sonhos e vontade de trabalhar, e achei que isso bastaria. Vesti as minhas melhores calças de ganga e fui bater às portas. Entreguei currículos embrulhados como presentes, escrevi cartas de recomendação, pedi para falar com diretores. Contactei vezes sem conta empresas que, na altura em que estava a dar os meus primeiros passos, me pareciam ter tudo o que eu queria: irreverência, flexibilidade e um espírito diferente. Contudo, e mesmo oferecendo-me para trabalhar sem remuneração, a resposta foi sempre “não”.
Foi nesta fase, enquanto distribuía folhetos numa rotunda ou fazia promoções pela noite dentro, que comecei a perceber que o que diziam na televisão – “basta ter atitude” – não era suficiente. Nem abdicar de salário, nem insistir diariamente garantia sequer uma oportunidade. Na altura, não tinha assumido que, afinal, Portugal não gostava de mim. E percebi com muito orgulho que o meu caminho – por mais paradoxal que pareça – exigia ir além das fronteiras nacionais, desde a Colômbia até à Índia. Foi nessa travessia, literal e simbólica, que entendi que, por vezes, não é o talento que falta, mas simplesmente o lugar certo para o mostrar.
Em 2012, Portugal tinha uma taxa de desemprego de 15,7 % e mais de 860 mil pessoas sem trabalho. No último trimestre, o número subiu para quase 923 mil. Em 2025, o cenário mudou – com o desemprego nos 6,3 % -, mas isso não significa que seja fácil. Hoje, surgem novos desafios, como o idadismo, que não se resolve com botox nem filtros.
Anos depois do meu percurso fora, já a fazer o MBA, o então CEO de uma empresa associada onde exerci funções deu-me algo impagável: a possibilidade de sentir que alguém acreditava no meu trabalho e na minha visão. Essa confiança marcou-me, e é disso que todos precisamos: de pessoas que vejam além do óbvio e reconheçam talento, mesmo quando o percurso não é linear.
Para todas as pessoas que se encontram numa situação semelhante à que vivi, posso partilhar um conjunto de conselhos. Ir a eventos do setor permitirá encontrar inúmeras empresas e pessoas que podem ajudar a abrir portas; realizar cursos de especialização em áreas inovadoras como a tecnologia, por exemplo, pode possibilitar iniciar uma carreira de futuro. Além disso, importa não descartar nenhuma experiência, pois todas contam e todas constroem.
Quando enfrentamos uma situação como o desemprego é importante percebermos que, mesmo quando nos sentimos perdidos, o caminho é sempre em frente. Se nos ouvirmos e apostarmos no nosso potencial, podemos mesmo chegar mais longe. Porque, como escreveu Tolkien: “those who wander are never lost”.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.