Em 1890, o rei D. Carlos foi surpreendido, logo no início do seu reinado, pelo Ultimato Britânico, um documento em que Londres exigia a Portugal o abandono das forças militares nacionais dos territórios africanos identificados no chamado Mapa Cor-de-Rosa e que eram reivindicados por Lisboa.O governo português, face à ameaça da maior potência do mundo – que embora fosse, também, a mais velha aliada, não teria contemplações, perante uma eventual tergiversação portuguesa… –, não teve outro remédio senão acatar o que lhe era exigido e, com o rabo entre as pernas, retirar.
Em 2025, perante o “ultimato” americano, o mais poderoso aliado da União Europeia, Bruxelas submeteu-se à exigência de Washington, aceitando tarifas mútuas de 15% nas transações comerciais. O acordo sujeita os europeus a um crescimento económico ainda menor do que o esperado – e o esperado já era anémico – e põe em causa uma série de áreas de atividade e setores sobre os quais paira a possibilidade da abertura de falências e correspondente desemprego. O “ultimato” americano ameaçava Bruxelas com tarifas de 30%, o que seria o correspondente, como alguns disseram, a um imenso ciclone sobre a economia europeia que, com a cedência dos 15%, reduz o grau da catástrofe à categoria de “tempestade”.
Em Portugal, em 1890, ergueu-se o clamor da bravata lusitana, sem mais consequências do que aquilo de que se costuma dizer que “é só garganta”. Mesmo assim, o memorando elaborado pelo primeiro-ministro inglês, lorde Salisbury, – e a sua total aceitação – provocou consequências internas importantes: a desacreditação da monarquia e a afirmação do projeto republicano; o hino A Portuguesa que, de início, proclamava, no refrão, “contra os bretões, marchar, marchar”; e uma subscrição pública para o reforço da marinha de guerra, com o intuito de dar combate aos ingleses – que eram, convém recordá-lo, “apenas” os senhores dos mares e os proprietários da maior frota de guerra do mundo…
Em Portugal, em 2025, vozes de vários quadrantes políticos manifestam indignação e rasgam as vestes, havendo, por cá e na Europa, quem (num paralelo com a subscrição pública de 1890…) pretenda responder a Donald Trump com tarifas iguais de 30%, “para ele ver o que é bom” e, ignorando que o homem podia aumentar a parada para 80, 100, 120 ou 200%, dar batalha à maior economia do mundo. Desta vez, não é uma monarquia que se desacredita, mas todo um sistema demoliberal europeu. Nem são os republicanos que ganham dividendos, mas os populistas e os oportunistas antissistémicos. Basta ver que o acordo alcançado entre a Comissão Europeia e Donald Trump, embora deixe hipóteses de sobrevivência à indústria automóvel, sacrifica, em grande parte, o setor agroalimentar – sabendo nós o poder de choque que os tratores europeus têm quando começam a desfilar pelas ruas de Paris, Lisboa ou Bruxelas ou quando os votos começarem a ser contados nas vastas zonas afetadas.
No meio de tudo isto, um político, com mais lata do que um ferro-velho, vem insurgir-se contra o acordo e contra a “fraqueza europeia”. Chama-se ele André Ventura, o trumpista que se gabou de ter sido convidado para a tomada de posse de Donald Trump. Ou a Europa coloca André Ventura a negociar com Trump, ou a piada faz-se sozinha
Os valentões que rasgam as vestes perante o ajoelhar europeu ao dictat norte-americano fazem-no, sobretudo, por duas razões: a primeira, por descargo de consciência. A segunda, porque não têm de ser eles a tomar as decisões. Desde 1945 que a Europa está totalmente dependente dos EUA, e não só na área da Defesa: está dependente dos norte-americanos, também, nas áreas da economia e da tecnologia. A Europa não tem quaisquer condições para lhes fazer frente, e isso começa pelo próprio protesto inorgânico que alastra pelas redes sociais: os europeus que usam o Facebook, o X ou o Instagram para protestar contra a prepotência de Trump e dos EUA fazem-no graças aos próprios EUA. Um simples clique, do outro lado do Atlântico, pode cortar-lhes a palavra e desligar as redes. Não dependemos, apenas, das dissuasoras armas nucleares americanas ou dos seus aviões invisíveis e escudos inteligentes antimíssil: se os americanos se chatearem, também ficamos sem correio eletrónico. As (metafóricas) subscrições públicas para fazer guerra aos EUA, a que assistimos nos últimos dias, são tão ridículas como as que se fizeram em Lisboa em 1890. Embora, se houvesse capacidade e coragem para cerrar os dentes, talvez a guerra a Trump tivesse uma possibilidade (muito ténue) de sucesso. Responder na mesma moeda iria precipitar a Europa numa era de miséria e convulsão pré-Plano Marshall, mas essa seria a única maneira de travar Trump. Como bom negociante, Donald Trump é imprevisível e pode, conseguida a mão, exigir levar o braço. Ninguém sabe o que ele vai querer ou impor amanhã. Ora, se não obtivesse hoje absolutamente nada, talvez concluísse que não adiantaria insistir. O problema é que nenhum europeu está disposto, hoje, a fazer sacrifícios. E nisso, os americanos continuam a dar cartas.
Pensando bem, os europeus estão totalmente dependentes dos EUA desde muito antes de 1945. A última potência europeia capaz de resistir à Alemanha de Hitler – mas não de a vencer – foi o canto do cisne, como depreendemos do Discurso das Praias de Winston Churchill, em 1940, que terminava assim: “… E se, no que eu não acredito nem por um instante, esta ilha, ou uma grande porção dela, fosse subjugada e passasse fome, então, o nosso império de além-mar, armado e guardado pela frota britânica, prosseguiria com a luta, até que, na boa-hora de Deus, o Novo Mundo, com toda a sua força e o seu poder, daria um passo em frente para o resgate e a libertação do Velho.” Não foi preciso: o Novo Mundo deu o passo em frente muito antes. Porque nessa altura a Europa já não dependia de si própria – e, então, o “Reich de Mil Anos” dos nazis, durou o que durou. Com o Plano Marshall, os EUA ensinaram-nos a pescar. O problema é que, até hoje, as canas continuam a ser fornecidas por eles.
O resultado do acordo alcançado entre a Comissão Europeia e Donald Trump tem consequências graves. Financeiramente, os EUA lucrarão entre 80 e 90 mil milhões de dólares por ano, enquanto a UE perderá oito a nove mil milhões. As tarifas aumentam a receita dos Estados, mas estes perdem no que cobrariam em torno do crescimento económico. E a chamada “economia verde”, que dava os primeiros passos promissores, é torpedeada mortalmente.
Mas todo este caso prova duas realidades que talvez nos custe engolir: primeiro, Donald Trump foi eleito pelos norte-americanos e não por qualquer outro povo do mundo. O que, na sua perspetiva, está a fazer é a tentar defender os interesses egoístas do seu país e dos seus eleitores, como todos fazem, e a usar o poder que o seu país tem. A segunda é ainda mais surpreendente: pois bem, está a conseguir. E, portanto, limita-se a cumprir a suas promessas eleitorais. No fundo, o projeto dos que o rodeiam é “um Reich de Mil Anos”. No meio de tudo isto, em Portugal, um político, com mais lata do que um ferro-velho, vem deitar postas de pescada, insurgindo-se contra o acordo e contra a “fraqueza europeia”. Chama-se ele André Ventura, o trumpista que se gabou de ter sido convidado para a tomada de posse de Donald Trump. Ou a Europa coloca imediatamente André Ventura a negociar com Trump, ou a piada faz-se sozinha.