
Ilustração: Chei Krew
É difícil ser consensual. E é difícil porque não estou a incluir na conta do consenso, aquelas figuras que se passeiam pela vida, por entre os pingos da chuva, na lógica do não- -aquece-nem-arrefece, para não incomodar os senhores. Não é disso que estou a falar. Quero dizer que é difícil ser consensual fazendo coisas, tomando iniciativas, mostrando trabalho, lidando com gente(s). Antes de mais, porque é difícil encontrar alguém que seja essa força motriz e ponto final. Quanto mais alguém com esse rasgo e que, ainda por cima, consiga angariar consenso.
Só de muitos em muitos anos (como aqueles eclipses), encontramos uma dessas figuras agregadoras, capaz de conciliar diferentes forças e gentes, em torno de um projeto comum. Aconteceu nos últimos (poucos) anos, no Porto, e o padroeiro do milagre dava pelo nome de Paulo Cunha e Silva.
Conheci-o a propósito de uma colaboração com o pelouro da Cultura da CMP, do qual era vereador. Fui convidada a participar numa das iniciativas do “Cultura em Expansão”, programa estandarte do pelouro, que consiste em levar atividades culturais aos bairros mais periféricos da cidade. Aceitei o desafio e, durante alguns meses, trabalhei na equipa do projeto OUPA! (coordenada pela psicóloga Gisela Borges).
A ideia era desenvolver uma residência artística, composta por inúmeras oficinas em torno da música, com um grupo de jovens do bairro do Cerco. O projeto culminou num emocionante concerto no Rivoli e na estreia do documentário Cercados (de Vasco Mendes e André Tentúgal), filmado ao longo do processo. O Cerco tinha chegado ao centro!
No filme, os jovens falavam de si, do bairro e da música como forma de redenção. A sala estava lotada. A gente do bairro reagia comovida e todos os outros portuenses também. A cidade celebrava-se. A visão do Paulo cumpria-se. E, depois de anos de uma (não)política cultural entorpecedora e provinciana, o Porto respirava de novo, com a excitação dos reencontros e de novas possibilidades.
O Paulo (acompanhado pela sua equipa) era incansável e, mais do que estar à altura dos desafios, esteve sempre à frente, trabalhando muito (demais?), para que ninguém ficasse de fora. Sempre com o cuidado de motivar. Sempre com o cuidado de agradecer. O mesmo cuidado com que, uns dias antes do concerto, fez questão de ir ao bairro pessoalmente, assistir a um ensaio, conhecer os jovens músicos e desejar-lhes boa sorte!
Na semana da sua morte, o Paulo estava em plena atividade. Muita coisa a acontecer na cidade, entre o Fórum do Futuro e a grande retrospetiva sobre a obra de Manoel de Oliveira. Encontrei-o por acaso. Perguntei-lhe, em tom de brincadeira, se tinha sido convidado para o Governo e pedi-lhe (atrevidamente) que não aceitasse. Era demasiado precioso para o Porto. Mesmo que pudesse ser, certamente, muito precioso para um eventual Ministério da Cultura (que tanta falta nos faz). Disse-me que a sua missão na cidade não acabara. Que gostava da escala local. De ver de perto os resultados do seu esforço. Que estava feliz.
A notícia da sua morte caiu com um impacto proporcional ao do seu trabalho na cidade. Nas manifestações de pesar, vimos com clareza o tal consenso. Gente da esquerda e da direita, da cultura e das empresas, de gravata e de boné, todos com a mesma estupefação dolorosa. Um longo cortejo fúnebre percorreu a Avenida dos Aliados. Aplausos. A cidade despedia-se, grata. Com os dedos cruzados. (Que o trabalho não se perca. Que se honre o homem, cumprindo-se a missão!)
Lá no meio, alguns metros atrás dos senhores de fato, caminhavam silenciosos o Hugo e o Ricardinho. Poucas horas antes(!), tinham recebido a chave do estúdio comunitário, que o OUPA! deixou no bairro. (Mais uma vitória de Paulo Cunha e Silva.) Caminhavam silenciosos e solenes, de luto, com a cidade. E como quem retribui o cuidado tido, fizeram questão de ir pessoalmente, do Cerco ao centro, (só) para agradecer.