1. Como diria o senhor de La Palice, António José Seguro ganhou as eleições porque uma grande maioria de portugueses votou nele. Pouco importa se o fizeram porque não queriam o outro candidato ou se achavam que ele era mesmo o homem certo para o lugar. É ele o vencedor.
Mas a vitória é sobretudo a da democracia e dos valores constitucionais. Era, de facto, a democracia que estava em causa, não o radicalismo face à moderação, ou o socialismo contra o não socialismo, ou a esquerda contra a direita, ou as várias maneiras que se encontraram para tentar esconder o que estava verdadeiramente em jogo nestas eleições.
Era ele quem estava no lugar de defender esses valores e foi por a grande maioria dos portugueses ainda os estimar que se sagrou vencedor.
2. André Ventura perdeu, mas não foi derrotado. Pelo contrário, o seu crescimento parece não ter fim: em menos de dez anos, passou de deputado único a um grupo parlamentar de 60 e, em três semanas, passou de 23% dos votos para 33%.
Estas eleições marcaram um novo patamar, não só quantitativo mas também qualitativo. O populista viu definitivamente cair as famosas linhas vermelhas entre as direitas. Votar na extrema-direita teve o decreto de normalidade assinado pelo primeiro-ministro e pelo agora comentador/deputado europeu/líder de um movimento político Cotrim Figueiredo.
3. No entanto, os eleitores dessas áreas, como dizia David Dinis, do Expresso, tiveram, na sua grande maioria, mais juízo do que os líderes.
É tempo, aliás, de as lideranças dos partidos do centro-direita refletirem bem sobre os resultados destas eleições. Parece claro que os eleitores dessa área rejeitam a viragem do centro-direita para a extrema-direita. Não querem políticas de imigração e de nacionalidade à Ventura, não querem leis racistas, não querem acordos com pessoas e organizações que defendem esses valores.
Montenegro mostrou, no seu inopinado discurso na noite eleitoral, o quão perdido está. Depois de ter assinado o tal decreto de normalização do Chega e de ter visto que o seu eleitorado rejeitou o seu colaboracionismo, sentiu a necessidade de dizer aquilo que os chefes inseguros sempre dizem: “aqui quem manda sou eu”, acompanhado do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, essa espécie de assinatura de Montenegro.
Na semana passada, defendi neste espaço que havia um vazio na representação do centro-direita. Estas eleições deixam absolutamente claro que ou o PSD muda radicalmente (não acredito nisso nem por um segundo) ou esse espaço será preenchido por uma nova força política ou pelo PS moderado. É que André Ventura não lidera a direita democrática porque não é um democrata, e Montenegro mostrou que não lidera espaço político nenhum. Tê-lo-ia liderado se tivesse feito aquilo que o seu eleitorado fez por ele.
4. De onde quer que tenham vindo os votos de Seguro, ele é hoje a figura cimeira do centro-esquerda português – melhor, de toda a esquerda. E não é apenas porque teve um número impressionante de votos. Um militante e ex-líder socialista é Presidente da República quando o PS não é governo, não é o segundo grupo parlamentar, não governa nenhuma região autónoma e não tem nenhuma das principais câmaras municipais do País.
O facto de ser visto como um moderado pode ajudar os socialistas a reconquistar o espaço ao centro que Pedro Nuno Santos perdeu (não interessa agora se justa ou injustamente). Ter tantas pessoas que foram decisivas para que se instalasse um incompreensível clima de ódio contra o PS a votar no candidato desse partido ajuda, factualmente, à sua recuperação.
É evidente que Seguro quererá ter um papel na reorganização do PS – mais que não seja, tem contas a ajustar –, mas nem tudo serão rosas.
A atuação do futuro Presidente pode também causar problemas à esquerda e ao Partido Socialista.
Escrevi-o aqui e reafirmo-o: Seguro não trará problemas a Montenegro; será o parceiro que nenhum dos outros candidatos poderia ser. Não precisa de se afirmar – a votação que teve dá-lhe conforto –, é alguém que leva muito a sério o seu papel institucional de cooperação e, apesar dos grandiloquentes anúncios de fiscalização da ação governativa típicos de campanha, será pouco interventivo.
Ver um Presidente socialista a promulgar legislação aprovada pelo PSD e pelo Chega e a colaborar com o Governo colocará um desafio especial a José Luís Carneiro. Mais: não é de desprezar a possibilidade de Seguro lançar apelos mais ou menos públicos ao PS para que coopere com o Governo.
Nestes cenários, ou o secretário-geral dos socialistas entra em conflito com a maior figura da esquerda ou é visto como uma figura passiva. Nenhuma das situações, naturalmente, lhe será favorável.
José Luís Carneiro está longe de ser um líder consensual no Partido Socialista e ainda não é visto pelo eleitorado como uma possibilidade clara para primeiro-ministro. Ter como Presidente da República alguém que é a principal figura do centro-esquerda e que quer moldar a sua ação – ou, pelo menos, vai seriamente condicioná-la – não ajudará à sua afirmação.
Carneiro só será visto como líder da esquerda e possível primeiro-ministro contra Seguro. Se for percebido como alguém que segue Seguro na colaboração com o Governo, seja substituindo-se ao Chega, seja não criticando Seguro quando este corroborar alianças PSD/Chega, arrisca-se a ter problemas sérios no seu partido. E, se insistir, pode surgir uma alternativa partidária na área da social-democracia ou, como agora se diz, do socialismo.
5. A reconfiguração do nosso sistema político-partidário já estava em curso e tudo indica que esta eleição a tenha acelerado, se os líderes do PS e do PSD não perceberem o que se está a passar. Para mal dos nossos pecados e da nossa democracia, só há um campo que parece sólido: o da direita não democrática. Não se adivinham dias felizes.
A reconfiguração do nosso sistema político-partidário já estava em curso e tudo indica que esta eleição a tenha acelerado, se os líderes do PS e do PSD não perceberem o que se está a passar