Quem acompanhou esta coluna neste último período eleitoral sabe que António José Seguro está longe de ter o meu apreço político. Se chegar a Presidente da República, tenho poucas esperanças de que a minha má opinião sobre ele melhore. No entanto, sei que é um democrata. Alguém que não tem dúvidas sobre os pilares fundamentais de uma democracia liberal, nem sobre os valores essenciais espelhados na Constituição da República.
Por outro lado, estamos todos esclarecidos sobre as convicções de André Ventura. Não é um democrata, quer outra Constituição e empunha com orgulho o seu racismo, a sua xenofobia e o seu desprezo por direitos e deveres civilizacionais fundamentais. Ele é o homem que no começo da campanha eleitoral queria três Salazares e que repete incessantemente que os últimos 50 anos foram terríveis em contraposição com os anteriores, claro.
Luís Montenegro, João Cotrim de Figueiredo e Marques Mendes não têm dúvidas: entre Seguro e um não democrata, é-lhes indiferente quem ganha. É-lhes igual que o primeiro magistrado da nação seja um homem que defende a Constituição ou outro que quer rasgá-la. É-lhes igual que o Palácio de Belém seja ocupado por alguém que cospe nos direitos fundamentais ou por quem os defende.
Vou deixar Marques Mendes de lado, porque quem na hora da morte política abandona os valores que parecia defender só merece esquecimento rápido.
É preciso ser justo, tanto o ex-social-democrata (se alguma vez o foi) como o ex-liberal (se alguma vez o terá sido) já tinham dado sinais de que parecem não partilhar o chão comum da democracia. Montenegro, a dois dias das eleições, declarou que Seguro e Ventura não deviam passar à segunda volta porque representavam dois extremos e Cotrim Figueiredo admitiu o voto em Ventura (a aldrabice do “não sei o que me passou pela cabeça” é de compêndio). Mas agora foi dito de forma direta e sem margem para interpretações: Seguro ou Ventura é-lhes igual.
Interessam-me pouco as táticas, as jogadas, os cálculos de perdas e ganhos quando se fala de política, aquela coisa que pode parecer um jogo, mas não é. Admito que possam existir de forma instrumental, porém são a negação da prossecução do bem comum quando se tornam o centro do processo político.
Assim, fico estarrecido quando se alega que Montenegro não declarou apoio a nenhum dos dois candidatos por tática política. São os mais básicos e essenciais valores democráticos a estar em causa. Trata-se de valores, de princípios sagrados que um democrata, sobretudo um primeiro-ministro, jurou defender.
Não pode haver neutralidade quando é a democracia a estar em causa. Há só colaboracionismo quando não nos pomos do lado dos democratas.
O jornal Público titulava no seu online: “Seguro não conta com a direita democrática numa segunda volta.”
Mas desde quando uma área política é democrática se não sabe o que é um democrata? Para se ser social-democrata ou liberal de direita é preciso começar por se ser democrata. Ora, quem não distingue um democrata de um não democrata não sabe sequer o que é a democracia.
Luís Montenegro matou o PSD. Ele, ao contrário do que por aí se apregoa, não entregou a liderança do centro-direita a Ventura: o populista não pode liderar um campo político a que não pertence. O que o primeiro-ministro fez foi converter o partido que ainda lidera numa organização que não tem valores nem princípios democráticos e colocá-lo à disposição de Ventura.
É que quando o populista tiver mais votos do que Montenegro, vai reclamar, e com razão, a liderança de um espaço que Montenegro gentilmente lhe cedeu no dia em que não tomou uma posição. Se o atual primeiro-ministro tivesse apoiado um democrata, Ventura jamais poderia dizer que representava também o eleitorado do PSD, por muito que houvesse gente do partido a votar nele.
Um militante do PSD ou um mero votante saberá que o partido dito social-democrata é cúmplice de André Ventura e de tudo o que ele defende. Se já era difícil não achar isso por Montenegro subscrever as teses sobre imigração e nacionalidade do Chega, ou por alinhar com Ventura nos temas civilizacionais, agora tornou-se cristalino.
E que não restem dúvidas: quem ficar no PSD depois disto colabora nesta vergonha para a história do partido, para esse cuspir em tudo o que o partido já representou. Aliás, esperei por um movimento de militantes, uma tomada de posição violenta contra a posição do partido. Um pedido de eleições, de congresso extraordinário, qualquer coisa. Até ao momento em que escrevo, nada, rigorosamente nada.
Algumas posições pessoais de apoio a António José Seguro, de Pedro Duarte e de Miguel Poiares Maduro, mas mesmo estes assobiam para o lado acerca da posição do PSD. Devem achar que é uma posição possível para um partido estruturante do nosso sistema político. Não é.
Um querido primo acusa-me muitas vezes de ingenuidade, diz ele que a direita se converteu toda às teses do Ventura e ao Chega. Pode ter razão. Mas no momento em que eu deixar de acreditar numa alternativa democrata à direita, tenho de admitir que a morte da democracia é inevitável. Algo, porém, tenho por certo: o PSD já não é essa alternativa.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.