As presidenciais trarão uma boa e uma má notícia: a boa é que dos cinco possíveis vencedores quatro perderão; a má é que um vencerá.
António José Seguro
O candidato que Pedro Nuno Santos foi ressuscitar do cemitério político está igual ao que sempre foi: um vazio total de ideias, um amor desenfreado pelo lugar-comum, um indivíduo que consegue dizer as horas como se estivesse a revelar o terceiro segredo de Fátima.
É o verdadeiro candidato de Luís Montenegro. Com Seguro em Belém, o primeiro-ministro teria assegurada toda e qualquer aprovação de dossiers polémicos, todas as alterações que muito bem decida promover. Nesses momentos surgiria o Presidente Seguro, com um ar muito sério, a dizer que o importante era o País e que lhe custava muito e tal, mas era inevitável. Qualquer semelhança com o que fez quando assinou com empenho as políticas que iam para lá da Troika não será coincidência.
No caso de as coisas, por alguma razão, correrem mal para o Governo, estará uma pessoa em Belém que o primeiro-ministro se encarregará de lembrar que até é do PS. Aí ninguém se recordará dos favores de Seguro.
Depois, e sobretudo, Seguro é a garantia de que a direita permanecerá por mesmo muito tempo no poder.
A esquerda e o centro-esquerda estão completamente perdidos e precisam de se reorganizar. É necessário redefinir caminhos e encontrar protagonistas.
Seguro é a imagem da indefinição e se existe alguma réstia de pensamento de esquerda nele, é o daquela envergonhada, a que há meia dúzia de anos era considerada direita moderada. Os consensos que ele diz querer são os consensos definidos pela direita que nunca esteve tanto à direita (não confundir com extrema-direita).
Imagine-se a esquerda a ter de se reorganizar tendo como principal figura António José Seguro. Mil blocos de esquerda e similares surgiriam, o PS partir-se-ia definitivamente e a direita, repito, perpetuar-se-ia no poder. Não é em vão que os principais apoiantes de Passos Coelho estão desde a primeira hora ativamente e em força na campanha de Seguro.
A política tem coisas muito irracionais e agora tem uma nova verdadeiramente extraordinária: as pessoas que votam à esquerda acharem que Seguro vai defender os ideais deles em Belém.
Marques Mendes
Não consigo perceber se será por ingenuidade ou soberba que Marques Mendes pode não ir à segunda volta.
Mendes tem elevados índices de notoriedade, o apoio do partido maioritário e nenhum tipo de anticorpo violento na opinião pública e deve ter pensado que isso lhe bastaria para ir a uma segunda volta.
Mas notoriedade não é popularidade, Mendes era um comentador, Marcelo Rebelo de Sousa um personagem. Se um comentador de direita ou esquerda é quase sempre um indiferenciado, um personagem tem uma dimensão que ultrapassa essa dicotomia primária.
Houve e há quem não perceba a diferença.
Mendes tem mesmo muita gente no seu partido que não o suporta (vide a quantidade de antigos dirigentes do PSD que apoiam declaradamente outros candidatos) e isso conta sobretudo em campanha.
Por outro lado, o povo português tem mostrado que não gosta de ter um presidente da mesma cor do Governo.
Entende-se que o antigo comentador se tenha colado às políticas do PSD: bastava ter 70% ou 80% dos eleitores dos antigos sociais-democratas para chegar com facilidade à segunda volta, mas tem sido demais. Não há rigorosamente nada que Mendes ache que o Governo faz mal, diria que nem Montenegro tem tão boa opinião do seu Executivo. O próprio eleitor PSD não quer uma espécie de colador de cartazes do partido em Belém.
Há mais. Mendes achou que ninguém lhe perguntaria sobre a sua vida profissional. Das duas, uma: ou ele não percebeu o clima de escrutínio e demasiadas vezes de devassa que hoje se vive, apesar do comentário televisivo semanal, ou é de uma ingenuidade cândida.
O ex-líder do PSD tem uma atividade que não é ilegal, que é praticada por muita gente que tem bons contactos na área privada e no Estado, uma espécie de mediação, mas que não é bem-vista pela maioria da população. Seja como for, justa ou injustamente, o rótulo de facilitador colou-se-lhe.
Cometeu todos os erros. Não se preparou para a inevitabilidade desse ataque, fez-se de ofendido, confundiu mediação com advocacia e para fim de festa fez o disparate final: admitiu ser facilitador, mesmo dizendo que seria de consensos. Esqueceu-se de que estas palavras valem por si mesmas.
Mendes só tinha de não cometer erros e de ter uma narrativa preparada para o seu passado recente. Fez tudo mal. A culpa será exclusivamente sua se não chegar à segunda volta.
João Cotrim Figueiredo
Contra todas as expectativas, João Cotrim Figueiredo parece ser uma hipótese para a segunda volta.
O candidato libertário é a prova viva de que as redes sociais são o meio mais importante para fazer uma campanha publicitária. E tem de ser dito que ele e a sua equipa são verdadeiros especialistas.
Como Ventura, percebeu que o importante é criar muito conteúdo. Ideias importam pouco. Isso associado a uma boa imagem foi essencial.
É um candidato de classe que conseguiu através da imagem chegar a outros mercados eleitorais.
É o maior beneficiário da debacle de Marques Mendes. Aliás, foi ele que começou a conversa do facilitador, o que em si mesmo reproduz bem o radicalismo que se instalou na direita. Imagine-se um eleitor de Cotrim que acha que vota num partido social-democrata: o candidato libertário está, como é evidente, nos antípodas dessa ideologia – entre outras coisas, não gosta do Estado social, quer privatizar tudo e mais alguma coisa, acha que o direito do trabalho serve para melhorar a economia e não para defender o trabalhador, e escolheria Milei em vez do Papa Francisco. Enfim, das duas, uma: ou quem se diz social-democrata não faz a mais pequena ideia do que é a social-democracia ou Cotrim conseguiu esconder isto tudo. Inclino-me para a primeira. O PSD deixou de ser social-democrata, e não é de agora.
Apesar do radicalismo de Cotrim, é de estarrecer que tenha admitido votar em André Ventura na segunda volta. Tinha-o como democrata e as suas propostas, apesar de radicais, não põem em causa o nosso sistema. Com esta posição admite que está mais próximo da direita não democrática do que da social-democracia.
Diga-se que assim não engana mais ninguém.
Pode haver, no entanto, um sinal aterrador: se Cotrim tiver uma votação muito elevada, sabemos que afinal a segunda volta não será um passeio para quem concorrer contra Ventura, caso o líder populista lá chegue.
Gouveia e Melo
Há uns meses, a dúvida era sobre se Gouveia e Melo ganharia à primeira ou à segunda volta. Agora há sérias dúvidas de que passe à segunda.
Os debates mostraram que não estava minimamente preparado para aquela tarefa e que a maioria das suas ideias estava colada a cuspo. Por outro lado, o ataque que fez a Marques Mendes pode ter tirado o ex-líder do PSD da corrida, mas também lhe fez mossa.
Em vez de fazer o que fez antes da campanha, ou seja, tentar mostrar que estava acima das quezílias políticas e da espuma dos dias, resolveu tentar jogar um jogo que não sabe jogar. Claro, deu-se mal.
A sua possível eleição tem muitos riscos: o de se acentuar o discurso antissistema, o de termos uma nova versão do PRD, a sua impreparação política e uma vertigem autoritária que não pode deixar ninguém descansado.
O que o vai mantendo à tona é a fragilidade dos outros candidatos. Ou seja, por muito que me custe, percebo que as pessoas pensem que se aqueles homens são o que o sistema tem para dar, mais vale trazer alguém de fora.
André Ventura
André Ventura quer destruir a nossa democracia liberal. Como tudo o que faz é com esse objetivo, resta apenas dizer que qualquer candidato deve ter como primeira função combater esse seu desejo.
Não duvido, porém, de que a grande tarefa de todos, sobretudo dos políticos nos mais importantes cargos, será a defesa da democracia dos Venturas nacionais e internacionais.
Importa dizer que os seus eleitores, convictos ou potenciais (como Cotrim de Figueiredo), toleram a vontade de destruir a democracia.