Portugal fez um percurso notável no desenvolvimento científico ao longo das últimas décadas. É com natural orgulho que podemos falar da inovação, da competitividade e da economia do conhecimento que foram criadas no nosso país. Foram formados investigadores, reforçados centros de investigação, estabelecidas ligações com alguns dos maiores centros de produção de conhecimento mundiais, consolidadas universidades e foi atingido um grau assinalável de maturidade científica e tecnológica. Portugal está agora, com mérito próprio, entre os países moderadamente inovadores da Europa, em 16º lugar entre os membros da União, ainda que com uma evolução abaixo da média europeia no período 2018-2025. E, em 2024, a despesa em I&D manteve a trajetória de crescimento, com as empresas a investirem 3,124 milhões de euros, e as universidades e os politécnicos a investirem 1,472 milhões de euros (Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional, publicado pela DGEEC). O próximo passo é agora o de assegurar que esse conhecimento seja transferido para as empresas e a sociedade. E esta é uma questão central.
Não basta provar que há competência instalada, porque a verdadeira questão é outra: o que acontece ao conhecimento depois de ser gerado, e quais os objetivos do investimento? Quando o investimento em investigação e desenvolvimento é suportado, em larga medida, por dinheiro público, essa pergunta deixa de ser apenas académica. Passa a ser política. Porque a ciência é ainda em grande parte financiada por fundos públicos, esta não deve servir apenas para alimentar indicadores, relatórios ou currículos institucionais, mas, sim, servir para criar valor social, económico e estratégico. Deve contribuir também para a competitividade e o crescimento do País.
Isto não significa defender uma visão estreita ou mercantilista da ciência. A investigação fundamental é um pilar fundacional que deve ser preservado e estimulado. É muitas vezes ela que abre caminhos, antecipa respostas e permite descobertas que mais tarde mudam setores inteiros. Um sistema científico sério não pode viver sem essa dimensão. Ou seja, estamos perante uma escolha de modelos que, num cenário adequado, devem coexistir e alimentar-se mutuamente.
Em Portugal, em demasiados casos, o sistema continua a premiar mais o ato de produzir conhecimento do que o esforço de o fazer circular, amadurecer, ganhar escala e gerar retorno, não obstante as várias iniciativas desenvolvidas para procurar criar um efeito eficaz na economia real com o conhecimento criado. Entre estas, destacaria a criação dos Gabinetes de Transferência de Tecnologia, os quais deveriam ter mais notoriedade e reconhecimento da sua importância.
Uma patente sem caminho não é inovação. É intenção, e é precisamente aí que o País mais perde. Perde oportunidades de criar empresas. Perde capacidade de transformar propriedade intelectual em riqueza. Perde margem para aumentar a sua autonomia tecnológica. E perde, também, talento qualificado, porque muitos investigadores acabam por procurar noutros ecossistemas aquilo que não encontram cá: estrutura, continuidade, investimento e horizonte de aplicação.
A ligação entre universidades e empresas não deve ser vista como uma cedência, mas como um sinal de maturidade do sistema. Sempre que essa relação assenta em investimento real, compromisso efetivo e objetivos concretos, ela ajuda a recentrar o foco da investigação sem empobrecer a sua ambição. Não se trata de instrumentalizar a universidade, nem de submeter a ciência à lógica imediata do mercado. Trata-se de reconhecer que uma parte do conhecimento produzido com recursos públicos deve ser pensada para chegar mais longe do que o circuito académico que a gerou.
E isso exige também uma mudança cultural entre investigadores, instituições e decisores. Durante demasiado tempo, o sistema habituou-se a medir sucesso quase exclusivamente pela publicação científica. Publicar continuará a ser central. Mas publicar não pode ser o único horizonte. Os mesmos ‘bits’ de inteligência que permitem construir uma boa investigação podem estar na origem de um produto, de um processo, de uma solução tecnológica ou de uma empresa.
Portugal precisa de um debate exigente sobre o modelo de desenvolvimento que queremos. Um modelo em que o conhecimento circula, cria valor, responde a necessidades concretas e reforça a capacidade do País, e não apenas talento e conhecimento científico.
Portugal já fez muito para ter investigação e ciência de topo, e está a trilhar o caminho da maior eficiência na transferência de conhecimento. Clara indicação disso é, entre outros, a evolução das universidades portuguesas no ranking da Time Higher Education em Inovação Industrial e Infraestrutura, onde se destacam a Universidade de Coimbra (31), a Universidade do Minho (37) e a Universidade NOVA de Lisboa (81). Mas, como em qualquer situação em que saímos de uma posição desfavorável, é fundamental acelerar. Porque quando o conhecimento não passa da investigação para a utilização prática, o país investe em conhecimento − mas desiste do seu impacto.
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