A decisão do Governo português de se afastar, quer no discurso, quer na ação, dos parceiros europeus para seguir o Presidente dos EUA numa guerra ilegal, estúpida, injusta e contra os seus interesses, vai ficar para a História como o exemplo perfeito de uma decisão de seguidismo irracional e medroso. Além das questões de segurança num mundo cada vez mais de poder multipolar, toda a nossa ausência por um lado e conivência por outro deixará Portugal numa posição bem distante daquele que tinha vindo a ser o propósito bem-sucedido nos últimos anos de uma maior influência no seio da União Europeia.
É importante fazer notar que a União Europeia não vai acordar um dia em 2028 ou 2030 para decretar que é a partir daí que se declara estrategicamente autónoma dos EUA. Tal como os investimentos europeus na defesa, isso trabalha-se e é gradual.
Depois das tarifas, da defesa intransigente dos interesses russos na guerra na Ucrânia, do documento de segurança que declara a União Europeia democrática e liberal como principal inimiga, à mercê de toda e qualquer tentativa declarada de interferência para que os seus congéneres extremistas europeus ganhem terreno e eleições, do achincalhamento constante dos antigos aliados europeus, do respaldo sem freio a um governo terrorista de Netanyahu, veio a guerra imbecil do trumpismo com consequências prejudiciais para grande parte do mundo e sem que os aliados europeus e da NATO tivessem sido consultados.
Pensemos por um momento se a partir daqui, e ao contrário daquilo que acaba a unir tanto um Pedro Sánchez em Espanha como uma Meloni em Itália, a resposta da maioria dos Estados-membros da Europa tem sido igual à portuguesa? Se não existisse uma voz e ações consequentes que fazem com que grande parte do espaço aéreo europeu esteja há largos dias fechado aos americanos para esta guerra contra o Irão? De França, Reino Unido e por aí fora, imaginemos do que se falaria e como estaria decretado, aí sim, o fim de qualquer ideia de uma União Europeia ou Europa soberana, pragmática e que tivesse agido contra as suas próprias opiniões públicas, contra a dos próprios EUA e contra o seu interesse noutros pontos do globo, entrando sem palavra nesta guerra?
Em nome da imbecilidade ignorante do pior e mais perigoso Presidente da História dos EUA, Portugal demonstra que até o seu nacionalismo é de pacotilha e só vale para tudo aquilo que é verdadeiramente pequenino e que serve para destruir o País. O nosso partido de extrema-direita que é lesto a martelar narrativas falsas sobre os imigrantes, a exponenciar o racismo, a insultar chefes de Estado de países de língua portuguesa e a evocar supostos valores patrióticos quando dentro de portas é o que mais ofende o País, nem consegue servir para emitir uma crítica a este seguidismo irracional do Governo. Que grandes nacionalistas estes nossos filhos do trumpismo!
Por fim, um Partido Socialista moribundo e refém do reflexo e do decreto apatetado de muitos em estar mais à esquerda ou ao centro, mostra-se incapaz de criticar e marcar a diferença de um Governo desequilibrado que largou o centro há muito. Tudo isto numa nova geopolítica que também exige capacidade para perceber a realpolitik e o quanto a política externa mudou. De pouco ou nada serve atestar isso vezes sem conta e julgar depois que ganhamos alguma coisa em não saber dizer que “não” como a maioria dos outros países ao inenarrável da Casa Branca quando está a sete meses de eleições intercalares que provavelmente e a acontecerem (?) deverão servir para começar a mudar alguma coisa.
Será que o ministro dos Negócios Estrangeiros português e este Governo acreditam mesmo que um país europeu que se posiciona como parceiro do trumpismo será visto, por outros, como um aliado dos EUA amanhã? É não os ouvirem com atenção e não perceberem a maior polarização nos EUA nos últimos 50 anos. Mas tudo é possível em Portugal: da ausência de europeísmo, quando este é mais exigido, aos nacionalistas de pacotilha, até à possibilidade de o dr. Montenegro e o dr. Rangel estarem convertidos ou se sentirem reforçados como trumpistas quando menos se esperava e aconselhava.
Para mais do que provável regozijo até de uma Giorgia Meloni, em Portugal chega-se a falar numa frente antiamericana com foco nos líderes europeus mais ativos contra Trump e esta guerra.
Não, a Europa não pode contar com este Governo português para a autonomia e para a sua afirmação. Servimos para criticar muito a falta disso mesmo, mas nas horas da verdade somos e mostramos o pior da União Europeia.
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