Os dias que se têm vivido com estas tempestades em Portugal seriam complicados de gerir para qualquer executivo, mas resta saber se este Governo assimilou ou quer assimilar o essencial. Não me refiro ao erro de casting que é a ministra da Administração Interna, à cooperação que falhou a todos os níveis, à agonia do SIRESP que não há forma de nos garantir que as comunicações do Estado em cenário de crise estão minimamente asseguradas, ao desenlaçar completo entre o poder central do País e o interior, aos vídeos e ações propagandísticos do ministro da Presidência, ao ministro da Defesa e aos militares, ou à tirada de mau gosto e difícil de classificar de Luís Montenegro em relação aos que perderam a vida de forma trágica por estes dias.
Tudo isto é bem relevante, sintomático de um certo degradar do momento em comparação com o passado recente e merece todo o julgamento e análise política para que nada seja esquecido. As pessoas têm razões para estar revoltadas e estão. No entanto, existe algo mais relevante e definidor do passado recente no presente e que mudará pelo pior ou pelo óbvio.
A emergência climática.
É a altura certa para lembrar que em Portugal até há menos de seis meses (!), contrariamente a muitos países europeus e ao fim de décadas de aconselhamento e evidência científica, usar esta terminologia e perceber a nova realidade, com o que isso passaria a significar para o poder central e autárquico, ainda era ideológico. Pior: englobados na internacional do negacionismo climático liderada por Donald Trump e através de partidos políticos como a Iniciativa Liberal e o Chega, muitos portugueses, demasiados, ficaram contaminados por esta onda que despreza a ciência e que nos tornou pouco ativos e menos objetivos perante as alterações climáticas. Tendo em conta o que tem sido esta legislatura, provavelmente grande parte da AD e deste Governo também ficou infetada pela doença do negacionismo climático.
O desafio coletivo não teve em Portugal o sentido de urgência e ação necessário por embirração ideológica ou autêntico contágio do pior dos tempos.
Quando Maria Lúcia Amaral, num momento confrangedor institucionalmente e que passará a listar nos manuais de “como não comunicar no meio de uma de crise”, se refere, apesar de tudo, a uma “aprendizagem contínua”, à reformulação de um plano institucional, a mudar a agulha nas políticas públicas, a mais investimento e prevenção aqui, é esta a base e aquilo que quer dizer de forma simples: acordem do despertar tardio para a emergência das alterações climáticas que temos diante de nós! Com tudo o que isso pressupõe tanto no verão, com os incêndios, como no inverno, com as tempestades e os fenómenos naturais a níveis nunca vividos. O problema é que toda a envolvente, forma e modo, a preparação em si e a comunicação foram tão maus noutro sentido que já ninguém a ouvia por essa altura.
Urge passar do papel à ação com investimento, não só pela prevenção, mas percebendo cada vez melhor os especialistas e seguindo a lógica de adaptar efetivamente os territórios. Reforçar tudo, desde os sistemas de saúde e proteção civil, à capacitação da população, que só pode largar de vez as vozes do negacionismo. Nenhuma destas catástrofes deveria ser hoje imprevisível e em cada tempestade ou evento extremo previsto tem de se estar preparado para o pior. O tal novo normal.
A realidade é que também aqui, quando não mata, o negacionismo destrói.