Faz 43 anos que vivo em Portugal e passaram uns bons cinco anos desde que adquiri a nacionalidade portuguesa. Uma vez concluído o árduo processo, em outubro de 2020, esperava-me uma corrida contra o tempo para obter o Cartão de Cidadão antes do fim do prazo de recenseamento para poder votar nas eleições do Presidente da República em janeiro de 2021. Mas venci mais esta batalha e, num domingo de sol, desloquei-me à Cidade Universitária para dar o meu voto antecipado em mobilidade e aperceber-me de que, para ser visto e aceite como cidadão português, precisava de algo mais do que o meu ainda fresco Cartão de Cidadão.
Apresentei o cartão para os membros da mesa poderem verificar que tinha o direito de votar, e a presidenta da mesa entregou-me o boletim de voto com dois envelopes, um branco, um azul. Seguiram mais ou menos as seguintes instruções: “Fold the paper, put it into the white envelope, then put the white envelope into the blue envelope…” Passei-me. “Para poder votar aqui hoje, tive de adquirir a nacionalidade portuguesa, e para isso tive de passar por um exame de conhecimentos de língua, pelo que não preciso que me falem em inglês ou em qualquer outra língua que não a portuguesa.”
Fiz a minha cruz, segui as restantes instruções, depositei o envelope azul na urna e pedi desculpas pela minha reação anterior, algo brusca. Mas lá veio um jovem membro da mesa manifestar alguma compreensão. Contou que, na véspera, tinha ido jantar num restaurante supostamente de especialidades portuguesas onde nenhum elemento do pessoal falava português.
Com o País a abarrotar de turistas (sendo que, naquele mês de janeiro de 2021, o turismo estava ainda longe de recuperar dos efeitos da pandemia), aprendi que os costumes em Portugal não são gravados em pedra. A velhos bons costumes como a simpatia e a hospitalidade veio somar-se um costume lamentável, o de querer dizer tudo em inglês.
Já temos cafés em Lisboa com ementas só em inglês. E quando há ementas em português, nem sequer a minha filha, nascida em Portugal, de mãe portuguesa, mas loira, escapa à classificação de turista. Não contam as vezes em que, apesar de falar português perfeito, sem qualquer sotaque (eu é que nunca irei perder o meu sotaque), lhe puseram à frente a ementa com o Union Jack, a bandeira britânica. Quantos portugueses não devem sentir-se já estrangeiros na sua própria terra?
Nos restaurantes mais frequentados por turistas, não me parece que seja só a língua a mudar. É impressão minha ou é verdade que se poupa o alho no bife porque nenhum homem com apetite sexual, uma vez satisfeito o apetite culinário, gosta que a mulher lhe vire a cara na cama porque não gosta de beijos com sabor a alho? É impressão minha ou poupa-se o sal no peixe a pensar nas preocupações dos turistas com a tensão arterial? Pai, tinhas razão, disse-me uma vez o meu filho após uns dias passados no Algarve. Quanto mais inglês se falava, menos very typical era a comida.
É estranho ver em Portugal uma elite cultural quase em guerra civil (só de palavras, felizmente) por causa de umas letras, uns acentos e uns hífens que mudaram com o Acordo Ortográfico (que, ao que parece, é visto como algo quase tão lesivo à dignidade nacional como a cedência ao Ultimato Inglês de 1890), mas no momento de impressionar ou ganhar dinheiro, parece que ninguém questiona o recurso ao inglês.
O vírus do inglês até circula na minha vizinhança, e sinto-me com cada vez mais dificuldade de manter a calma. Na fila da caixa no supermercado, uma pessoa dá-me um pequeno empurrão, sem querer, e segue-se logo um “sorry”. Ao que parece, muitas cabeças já estão programadas para a nova subserviência às pessoas de fora (pelo menos, às de pele branca).
Que esforço fazem tantas pessoas de fora para aprender português, quando temos comunidades anglo-saxónicas com pessoas que se gabam de ter vivido 20 anos em Portugal sem necessidade de adquirir sequer uns conhecimentos básicos de português?
As pessoas querem ser simpáticas contigo, dizem-me amigas e amigos, para me consolar. Será assim? “Gosto de praticar o meu inglês”, ouvi dizer várias vezes a empregados de cafés para justificar a sua insistência em falar a língua de Shakespeare. Até em call centres, mesmo que tenha optado por falar em português, rejeitando a opção “for English press 9”, houve assistentes que mudaram para o inglês no meio de uma conversa. Quem diz que o inglês deles é melhor do que o meu português? Nos contactos pessoais, a suposta simpatia até pode ser estigmatizante. Uma amiga organiza um jantar com umas oito pessoas, quase todas de nacionalidade portuguesa, amigas e amigos, que falam português entre si. Uma amiga da amiga teima em falar inglês comigo, e só comigo. Não estará a discriminar-me em vez de me facilitar seja o que for?
Aprender línguas abre horizontes. Facilita não só a comunicação com gentes de outros países, mas também o acesso a outras mentalidades. Quanto mais línguas falamos, melhor, e falar inglês, em particular, é cada vez mais essencial. A disponibilidade e a facilidade de comunicar com pessoas de fora, de desenrascar com outras línguas, é uma habilidade portuguesa. Na minha primeira vida a Portugal, em 1975, a minha namorada de então e eu teríamos ficado perdidos sem tanta gente, mesmo de meios humildes, a falar ou pelo menos a compreender francês, que era, na altura, a primeira língua estrangeira ensinada nas escolas em Portugal e aprendida lá fora, à força, por tantos emigrantes portugueses nos bidonvilles à volta de Paris onde não abundavam propriamente intérpretes para facilitar a vida aos trabalhadores lusos.
Mas esta compreensão não acaba por ser uma via de sentido único? Que esforço fazem tantas pessoas de fora para aprender português, quando temos comunidades anglo-saxónicas com pessoas que se gabam de ter vivido 20 anos em Portugal sem necessidade de adquirir sequer uns conhecimentos básicos de português?
A facilidade de comunicar mistura-se com alguma subserviência. Espanha funciona de forma diferente. Num país onde podemos viajar mil quilómetros por regiões com a mesma língua principal (embora com pronúncias diferentes, e línguas diferentes na Galiza, no País Basco e na Catalunha), vemos alguma relutância em relação à aprendizagem de outras línguas. Mas há algo que falta em Portugal – mais orgulho pela própria língua. Claro que prefiro ver filmes ingleses na versão original, como costumam ser exibidos em Portugal, e não dobrados, como acontece em Espanha. Mas fora do cinema, quero comunicar em português.
Não vamos dificultar a vida a quem nos visita ou a quem decide viver em Portugal. Mas que tal cuidarmos um pouco mais da nossa língua? Ou será que vamos ter, nos próximos tempos, uma versão inglesa do Hino Nacional para ser cantada por turistas em Allbufeira e no resto do Allgarve (lembrando a designação criada outrora para promover o turismo na região)? E se calhar já faltou mais para “Camões” não ser entendido como nome do poeta nacional que se homenageia em cada 10 de Junho, mas sim como plural de camone, espécie cada vez mais abundante e venerada em Portugal.