As mesas de fórmica são corridas, protegidas por individuais de papel, e grita-se do postigo da sala de refeições para a cozinha, “é um mini de filetes para a Ana, sem salada. Ouviste?”
Que sim, não é surda. E comanda o fogão há mais de 40 anos.
Desde que abri um jornal diário dos idos 90 e encontrei à venda a casa onde decidi ser perfeito viver, fazendo de mim e família, gatos e cães incluídos, “outra das finas” a aparecer no primeiro bairro social de Lisboa, que a vejo de roda dos tachos. E assento praça para o café, encomendando para depois o almoço.
Ganhei direito a ser tratada pelo nome próprio, e em dias de boa disposição ouvir, “diz lá o que queres, e é se queres”, que já nem me perguntam ao que venho e sentam-me onde haja lugar vago, frente a quem seja.
A TV ligada todo o santo dia com o som aumentado à hora dos telejornais, são assim comandadas as conversas das mesas corridas e pausas de quem nos serve, de pé, pratos na mão e olho no ecrã.
Metade das notícias passam a discussão comum da sala, perdendo-se os detalhes e comentários seguintes apresentados no ecrã. Parte da pertença à casa são os anos de estatuto de comentadores diários, já informados como ninguém mais, muito antes da hora dos jornais televisivos.
– É uma pouca-vergonha, antes não era assim.
– Diz que não tinha telemóvel nem falava português…
O arrepio que me tolhe a vontade de comer aperta mais o estômago e olho as favas, que reservei mal se anunciaram pela manhã no papel colado à porta.
– Então, estamos de dieta ou queremos queixar-nos de que veio frio? Vá, que tenho mais gente à espera da sua cadeira, e já lhe guardei farófias.
Farófias lembram-me tempos mais antigos do que os da decisão de passar o resto da vida neste canto resguardado de Lisboa. Que me pareceu certa. Até perfeita para os anos em que fiz crescer crianças em escolas perto de casa, jardins ao virar da esquina para onde os cães partiam sozinhos e de onde voltavam pelo seu pé, a são e salvo, feita a reunião com outros congéneres igualmente libertos por vizinhos, treinados sabe-se lá como, provavelmente por imitação do quatro patas mais velho e então senhor absoluto do bairro. Tudo rafeiro, tudo recolhido de outras vidas, um mistério passado e esquecido.
Não se compravam cães de marca no bairro, nem se perguntava de onde vinham as dezenas de gatos que o percorriam, em busca dos restos deixados só para eles.
Hoje os cães do bairro têm pedigree, saem à trela, os gatos igualmente aristocráticos têm coleiras com localizadores e os donos encomendam jantares via apps que recebem das mãos de alguém irreconhecível debaixo do capacete.
– “Eles vêm para cá para isto mesmo! Ter filhos à borla, receber os subsídios no bem bom” e ressoa mais forte, “tem de se correr com eles todos”.
Atirada às farófias, resguardo-me na história antiga, amarga e doce, feita de cumplicidades hercúleas, batalhas feitas em castelos já desfeitas.
Era noite de 24 para 25 de agosto de 1988 quando me liga a empregada da minha avó paterna. Um ano depois do marido, a senhora partia no sono.E dada a portuguesa tradição de férias em agosto, assumi sozinha as primeiras decisões sobre essa morte. A restante família ausente, amigas da minha avó restavam a Adriana e a Benilde, e estando Adriana a banhos e sendo Benilde alguém sobre quem ninguém sabia coisa alguma – tudo o que se sabia era que se telefonavam todos os dias – não havia como a localizar.
Passei assim a tarde do dia seguinte sozinha na penumbra da Capela de São Sebastião. Às férias, acrescia o pandemónio de uma cidade em desespero. O Chiado ardia desde madrugada. Já quase ao anoitecer entrou na capela uma senhora que me foi vagamente familiar e que cumprimentei, que ali ficou em silêncio uma boa meia hora, ao fim da qual se levantou e disse, “já volto”.Perguntei se seria a Benilde, já que não via quem mais pudesse ser.– Tu és filha de quem?– Do António.– A tua avó falou-te de mim?Finalmente a história do mistério de anos. Que não, só sabia que eram amigas, que se telefonavam diariamente, mas que raramente se encontravam.– Na semana passada ia almoçar sozinha e a tua avó veio ter comigo. Tinha farófias para a sobremesa, e ela pelava-se por farófias.
Sorri-lhe que sim, farófias, devorar livros, bater-nos às cartas, e avisar que o avô tinha perdido o fio às meadas todas.
– Tenho o Mário à espera, conversamos depois.Fez-se luz já ela tinha entrado no carro estacionado ao fundo da escadaria da igreja.Safadas!!!! Pois claro, Benilde…Durante anos, os meus avós e o Mário e a Maria tinham viajado juntos, partilhando desvelos culturais, correspondência, clandestinidades políticas, amizade forte e antiga. Até os dois homens se zangarem, seriamente afastados nas reviravoltas políticas.
À frente do meu avô nunca mais se falou em Mário Soares ou Maria Barroso.
A conversa em que fiquei a saber toda a história só a tivemos, Benilde e eu, uns bons anos depois. Pouco mais havia para contar sobre uma amizade cerrada entre duas mulheres independentes, teimosas, senhoras dos seus narizes com um considerável sentido de humor, um enorme amor à arte dramática, e um savoir-faire descomunal perante as quezílias políticas dos maridos.
Da conversa trouxe ainda uma fotografia dos inícios de 50, onde o meu pai se senta à ré, com o amigo dos pais bem assente à proa, ambos prontos para partir à pesca, não sei de quê, remando de costas.
Como será manterem-se amizades de sempre, laços de vizinhanças antigas, quando de novo se semeiam vendavais a torto e a direito, esquerda escada abaixo, direita em frente, acima, acima gajeiro, acima ao tope real…
Vá que a meu ver, Mamdani vencer já agora lá por fora, no antigo país das liberdades, construído por imigrantes, não era inimaginável, era inevitável, mais tarde ou mais cedo. Mas o que valeu agora para uns, valerá em volta, onda sísmica de um epicentro posto em repouso por o tempo que foi?
Será que já foi? Será que as tempestades elétricas que nos assolaram há dias, estranhos bailados de relâmpagos positivos e negativos, são apenas passageiras ou terão elas iniciado um período fértil de mudança?
Mudo de casa, esqueço amigos e conhecidos enraivecidos como raios, e aprendo a fazer farófias? Ou espero que os próximos relâmpagos sejam positivos? Dizem que os relâmpagos positivos são os que se juntam às partículas negativas do solo e tudo sobe de regresso às nuvens.
Na dúvida, separo já 4 gemas, 4 claras, 170 g de açúcar, 1 l de leite, casca de 1 limão, 1 colher de sopa de amido de milho, e canela em paus, e em pó.