A primeira vez que vi o Chico, “Chicão”, estava encarrapitada na “árvore dos macacos”, uma velha oliveira, sobrevivente como muita outra natureza à então nova urbanização de Oeiras, a Nova Oeiras.
Bem pensada e respeitadora dos verdes em redor, vivia-se bem nesta nova urbe, quer se fosse criança ou adulto. Horizontes largos, ar do mar, pores do sol sobre o fim do rio e o começo do mar, Bugio ao fundo a lançar o ronco em noites bravas de inverno, lugares à porta para todos os carros, e um não acabar de campo, recheado das maravilhas que se acolhem debaixo da terra livre de alcatrão e calçadas.
Obrigando-me a procurar, do alto da árvore, o inimigo que acertara em cheio na minha perna deixada à vela pelos calções, encontrei o Chicão emaranhado no restolho lá debaixo, fisga na mão, e um sorriso aberto.
Ficámos amigos mal desci, olhei a fisga com respeito e perguntei, “fazes-me uma?”
Não fez. Mas ensinou-me a fazer, tal como veio a ensinar-me tudo o que importava saber quando se tinha um nunca acabar de campo por horizonte e recreio. Foi num carrinho de rolamentos feito sob as suas instruções que descobri o prazer da velocidade, na Alameda Conde de Oeiras. Com ele afinei a arte de lançar uma faca pelo bico, rodopiando certeira e veloz até se cravar na árvore, aprendi a distinguir o canto de uma ferreirinha, e ver horas certas pelo lugar do Sol, a encontrar um cão perdido. Foi o meu melhor amigo de infância, a quem por troca ensinei inglês, entoando-o tal qual um príncipe britânico.
E, faz por esta altura 58 anos, o Chicão foi um herói.
Era sábado, 25 de novembro de 1967, e pela tarde festejou-se mais um ano da minha vida, completo uns dias antes. Já chovia que Deus a dava há umas horas e perto do jantar ficou assente que crianças e pais presentes dali não iam sair. Mas o Chicão já conseguira arrastar o meu pai até ao picadeiro mesmo junto ao rio, mal a chuvada virara cortina de água.
Cigano, sabia que os seus ter-se-iam posto a recato há muito, mas sabia também os muitos que eram os cavalos mantidos separados em boxes fechadas. Fazia uns tostões ajudando à limpeza diária nas manhãs. As escolas não se abriam para ele.
As chamadas minorias, como os ciganos, estavam excluídas do nosso sistema de ensino antes do 25 de Abril. Não propriamente “por lei”, digamos, mas “por facto” consumado. Fosse por serem obrigados legalmente à itinerância, fosse por os sedentários se verem excluídos pela sociedade absolutamente maioritária.

Nada disso me tinha sido feito compreender nessa altura pelos meus pais, e não andando numa escola portuguesa, o que só mais tarde compreendi ter sido decidido para não me fazer devota à Pátria, Ordem, Religião, Disciplina e culto do Dever Militar.
E nessa noite o Chicão e o meu pai, e não sei quantas mais almas, conseguiram pôr a salvo uns quantos cavalos, montados em pelo e trepando a pique a encosta sobre a margem alagada do rio. Perdidos ficaram cinco cavalos do mestre José Baptista, entre eles o Tirol e o Talismã, mantidos em baias fechadas com chave.
Choveu em poucas horas o que deveria ter chovido num ano. De Cascais a Alenquer, a chuva chegou, por hora, aos 170 litros por metro quadrado. Desaparecerem mais de 20 mil casas, foram-se bairros e aldeias inteiras. Oficialmente houve 462 mortos, mas calculou-se um número próximo dos 700. Perante a inação de Salazar, saíram 5 000 estudantes a ajudar as vítimas. E esse movimento veio a marcar uma geração. Três meses depois das cheias, o jornal da JUC – Juventude Universitária Católica – fez uma separata que incluía entrevistas ao arquiteto Nuno Portas e ao paisagista Gonçalo Ribeiro Teles. Apontavam como causas do desastre o desordenamento do território, com construção em leito de cheia, a destruição de matas e matos, a canalização das linhas de água e, entre outras, a “existência de uma população urbanisticamente marginal, vivendo em grande parte em barracas”.
Depois, Nova Oeiras ficou para trás.
Quarenta e alguns anos mais tarde, em Lisboa, a braços com um projeto sobre os Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária da cidade, tenho um grupo de moradores, várias nacionalidades e etnias empenhados na melhoria das condições do seu bairro, a quem sugiro que escolham alguém com quem passe a articular-me.
– Falas comigo que a gente entende-se, Luisita. Ou não?
O abraço ao Chicão foi dos maiores que dei e recebi de volta nos últimos tempos.
E passo a palavra escrita a duas mãos ao Piménio Ferreira.
Até quando?
Imaginem um irmão, uma mãe, um filho. Serem humilhados, violentados, agredidos – em público, diante de vizinhos, colegas, estranhos do autocarro, da mercearia, da sala de aula.
Espaços que deviam ser seguros invadidos pela imagem dessa agressão: comentada, cantarolada, exibida. Conseguem imaginar?
Foi assim que me senti esta semana: um alvo fácil, sem defesa, sem proteção, sem solidariedade. Enfrentei uma violência racista encoberta por instituições do Estado – partidos, tribunais, juízes, promotores, comissões. A democracia representativa insiste em representar racistas, machistas e agressores. E quem protege as vítimas?
Passei dias entre raiva e o esforço de responder com sentido. Não quero “acalmar ânimos”, quero responsabilidades: racistas organizados têm culpa, e quem lhes dá poder tem culpa maior.

Carmichael lembrava: “O racismo não é atitude, é poder.”
Hoje dá-se poder ilegítimo a racistas para agirem, violentarem e ainda se dizerem representantes.
Pergunto: é lícito violentar cidadãos e trabalhadores por serem imigrantes ou portugueses não brancos?
Vale a pena continuar a confiar numa democracia liberal que legitima quem agride em nome da representatividade?
Reflitamos: queremos forçar uma rutura da legitimidade dita democrática em nome de interesses escusos?
Os ataques a portugueses e imigrantes afetam todos. As nossas crianças – sobretudo as brancas – estão a ser radicalizadas. Para quê? Para serem carne de canhão numa guerra entre Europa e China ou Rússia, ao serviço dos Estados Unidos, que sempre que entram em crise fabricam guerras e mandam europeus morrer por elas?
Portugal vai compactuar com uma agência racista, colocando o País em risco por interesses externos? Não basta o século XX ou a Ucrânia/Rússia de hoje?
Racistas não têm direito a representação política. Movimentos apologistas da violência e do ódio não têm lugar na esfera pública. E o que o Chega fez foi apologia do ódio, ponto.
Devem ser desmantelados antes – e sobretudo depois – de agredir. Há limites. Todos concordamos: mentirosos, burlões, violentos, violadores, assediadores não merecem poder. Um racista é um agressor.
Chega e grupos similares têm práticas racistas com cumplicidade tácita dos poderes legislativo, executivo e judicial. Até quando legitimar o racismo, a xenofobia e os seus ódios?
Que se exija responsabilidade a promotores e juízes que permitem a agressão institucional.
A violência é agência dos racistas. Mas o poder que a torna possível é responsabilidade de quem o concede.
Atue-se correta e assertivamente.
Mais levemente, acrescentam as mãos de Olga Mariano.
E pronto… vestiu-se a camisola aos avessos.
O povo de bem ouviu o cântico da sereia, embalador, enganador, doentio e perverso. Não houve como, e caíram nas mais profundezas do inferno. Agora temos de ponderar a forma como vamos sair desta. Só unidos vamos conseguir.
Porque o flautista de Hamelin jogou sujo com a sua flauta levando ao engano os ratos (segundo expressão destes agentes enganadores e populistas) para o fosso. Acontece que há gente, com história há mais de 500 anos, em Portugal, que não se deixa dobrar e/ou domesticar, que tem respeito pelo seu país, mais do que tem pela sua família, que chora quando ouve o Hino Nacional, quando a sua cultura é uma mais-valia e não um desrespeito pelos outros seus compatriotas, que tem muito orgulho na sua bandeira e no seu País. Acima de tudo, tem esperança na democracia, pois não foi à toa que há 51 anos aconteceu o 25 de Abril.
E volto eu à carga com duas mãos.
“Se uma sociedade for ilimitadamente tolerante, no final, a sua capacidade de ser tolerante será destruída pelos intolerantes. Devemos, portanto, reclamar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar os intolerantes.” Karl Popper avisou-nos, há quase um século.