Durante décadas, a escola pública portuguesa foi um dos maiores instrumentos de mobilidade social e de construção democrática do País. Foi nela que milhares de crianças encontraram oportunidades que as suas famílias nunca tiveram. Foi nela que se ensinaram valores de cidadania, respeito, esforço e responsabilidade. Hoje, porém, muitos professores sentem que essa missão está em risco.
O problema não está apenas na falta de recursos, nos programas extensos ou na burocracia sufocante que invade diariamente as escolas. O problema reside também numa transformação cultural que retirou autoridade aos professores, banalizou a indisciplina e promoveu uma visão perigosa do ensino, a ideia de que exigir é errado e de que frustrar um aluno é quase um pecado pedagógico.
Durante anos, confundiu-se inclusão com ausência de regras. Confundiu-se proximidade com perda de autoridade. Confundiu-se o direito à educação com a inexistência de deveres. O resultado está à vista de todos os que vivem a escola por dentro: professores desautorizados, funcionários desrespeitados e salas de aula onde, demasiadas vezes, o comportamento de alguns impede o direito de aprender da maioria.
A escola pública não pode transformar-se num espaço onde o professor tem receio de repreender, avaliar com rigor ou impor disciplina. Um docente não é um animador social. É alguém cuja função passa por ensinar, orientar e exigir. Sem autoridade, não existe ensino sério e autoridade não significa autoritarismo, significa reconhecimento, respeito e legitimidade para conduzir uma turma.
Hoje, muitos professores enfrentam uma realidade desgastante. Há alunos que insultam, interrompem constantemente as aulas, desafiam regras básicas de convivência e, em alguns casos, chegam mesmo a ameaçar docentes e funcionários. Pior ainda, muitas vezes, quando um professor tenta agir, encontra pouca proteção institucional e escasso apoio das famílias. Criou-se uma cultura onde qualquer chamada de atenção pode gerar conflitos, reclamações ou acusações contra quem apenas procura manter a ordem.
Naturalmente, esta realidade não representa todos os jovens. Seria injusto afirmá-lo. Existem milhares de alunos educados, empenhados e respeitadores, mas ignorar o crescimento da indisciplina seria igualmente irresponsável. O medo de enfrentar este problema levou muitos decisores políticos a optar pelo facilitismo, baixaram-se exigências, suavizaram-se consequências e criou-se a ilusão de que o sucesso escolar se constrói através de estatísticas, em vez de aprendizagem efetiva.
Uma escola sem exigência não promove igualdade, perpetua desigualdades. Os alunos com famílias estruturadas e recursos adicionais continuarão a ter apoio fora da escola, já os mais vulneráveis ficam dependentes de um sistema que, ao desistir do rigor, acaba por lhes retirar oportunidades futuras.
Também os professores pagam um preço elevado. A profissão perdeu prestígio social, atratividade e capacidade de renovação. Muitos docentes vivem exaustos, desmotivados e emocionalmente desgastados, alguns contam os anos para a reforma, outros abandonam a profissão e cada vez menos jovens querem seguir carreira docente. Não é difícil perceber porquê.
Se queremos defender a escola pública, impõe-se devolver dignidade à função de ensinar. Isso implica reforçar a autoridade dos professores, responsabilizar alunos e encarregados de educação pelos comportamentos inadequados e recuperar uma cultura de respeito dentro das escolas. Educar não é apenas transmitir conteúdos, é também ensinar limites, responsabilidade e convivência.
A escola pública portuguesa continua a ter profissionais extraordinários, capazes de mudar vidas todos os dias. Mas nenhum sistema educativo sobrevive quando os seus professores deixam de ser respeitados. Uma sociedade que desvaloriza quem ensina acaba, inevitavelmente, por desvalorizar o próprio futuro.
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