Certas manchetes são uma dádiva. Um cronista abre o jornal, lê duas linhas e percebe logo que pode cancelar todos os compromissos intelectuais dessa semana. Foi o que me aconteceu, há uns dias, com o Guardian. Segundo o jornal inglês, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, teria declarado que anda a fazer “o máximo possível do trabalho de Deus” e, se isso conduzir ao fim dos tempos, por ele sim senhor. Confesso: fiquei animado. Um homem a dois passos da presidência da maior potência militar do mundo, católico convertido, a falar no Anticristo e a admitir que a sua acção política possa colaborar com o Apocalipse?
Havia ali tudo. Deus, César, bombas atómicas, a besta do Apocalipse, e um católico furioso na Casa Branca. Pensei imediatamente no grande problema de qualquer político religioso: não é acreditar em Deus, evidentemente, mas começar a acreditar que Deus acredita especialmente nele.
Fui, portanto, ouvir o tal podcast e aconteceu uma das coisas mais aborrecidas que podem acontecer a um cronista: a realidade estragar-lhe a crónica. Não há nada pior do que os factos quando um tipo já tem as teses alinhadas.
JD Vance falou durante uma hora e pouco com Bryce Crawford, um jovem evangélico americano. Entre o ameno e o juvenil, trocaram experiências de conversão; falaram de filhos e animais de estimação, da confiança que podemos ou não ter em ir para o Céu, da humildade perante a dúvida, de vitrais em catedrais francesas, da insignificância da nossa impressão de “declínio da cristandade” diante da graça de Deus e ainda do possível significado de Vance ter estado com Francisco no Domingo de Páscoa, na véspera da morte do Papa. Enfim, conversaram sobre aquilo que seria razoável esperar de duas pessoas cristãs num podcast cristão.
Então, quase no fim, Crawford lança o Fim dos Tempos, assunto que interessa — ou devia interessar — a qualquer cristão e que tradicionalmente exerce uma atracção especial sobre convertidos e evangélicos. Vance, claro, ligou logo as antenas. O que é perfeitamente compreensível: não só faz parte da primeira categoria, como a seguir à Criação e à Ressurreição, o Fim dos Tempos é mesmo capaz de ser o tema mais empolgante de sempre.
Mas, em vez de dizer aquilo que o Guardian deu a entender que disse, acrescentou o que qualquer cristão sensato acrescentaria: não sabe se estamos no fim dos tempos e concentrarmo-nos demasiado no assunto pode fazer-nos mal. Depois, como não sabemos quando Cristo voltará, convém cuidar da família, cumprir as nossas responsabilidades profissionais — todas essas coisas que um homem tem de fazer. É uma posição indecentemente sensata.
Vieram, então, as frases boas para publicar fora do contexto. Vance disse que, tendo em conta o estado actual da humanidade, não se surpreenderia se o Anticristo já andasse por aí. E acrescentou que procura fazer o trabalho de Deus tanto quanto consegue. Se isso conduzir ao fim dos tempos, muito bem; se conduzir a um mundo melhor que continue por milhares de anos depois da sua morte, muito bem também. O Senhor lá saberá. (Maldito Vance que deixa a Deus a extravagante prerrogativa de saber o que Deus pretende.)
Afinal não se tratava de um vice-presidente apostado em acelerar o Apocalipse. Bolas. Na realidade, aproximou-se mais do contrário. E o homem ainda teve a desfaçatez de rematar o raciocínio com aquela dose certa de pessimismo antropológico capaz de enternecer até o católico mais positivo: “ontem correu bem, amanhã talvez corra pior”.
Se Vance tivesse realmente dito aquilo que a manchete do Guardian nos convida a imaginar que disse, teríamos excelentes razões para ficar preocupados. Católicos incluídos: há dois mil anos que a Igreja faz por refrear todo aquele que julga ter acesso privilegiado aos planos de Deus.
O problema é que se desaprendeu o léxico teológico. Jornais como o Guardian ouvem “trabalho de Deus” e soa-lhes a trombetas de guerra. Lêem “Fim dos tempos” e traduzem para “radicalização”. Num tempo em que o que não faltam são fins do mundo — o clima pode acabar connosco, a Inteligência Artificial pode acabar connosco, uma guerra nuclear pode acabar connosco —, a única escatologia que causa embaraço é a escatologia propriamente dita.
Resumindo e concluindo: JD Vance acredita que o fim dos tempos há-de chegar. Lá está, é católico.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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