Deu-se o caso esta semana. Henrique Raposo, um homem que já irritou a direita e a esquerda, os alentejanos e os lisboetas, conseguiu agora irritar os católicos. Mas calma: católicos há muitos. Até o Henrique é um deles. Os católicos que o Henrique escolheu para irritar são aqueles que se ajoelham e que se sentem perto do latim como língua litúrgica. Os deploráveis do catolicismo. O Henrique tem esta característica e é um superpoder, um dom sobrenatural, quase místico: o dom de irritar.
Evidentemente, começa por Trump. Como todos os que escrevem de cor e sem risco. Depois prossegue pela viragem à direita da nossa juventude, para ir desaguar no renascimento católico sobre o qual se tem escrito ultimamente. E eis que, como quem tira uma banana do bolso a fingir que é uma pistola, saca da sua velha tese: todo o católico que se ajoelha na missa é católico errado. Mais: é hipócrita. E ainda: pratica um gesto velho, árido, cujo único fito é a sinalização de virtude. “Um teatro beato”, escreveu.
Todavia, a birra não seria assim tão relevante se não viesse envolta numa ignorância histórica e teológica que não resiste a dois minutos de catecismo. Como se o Henrique, um recém-convertido, talvez pela sede de efeito, própria da juventude das coisas, pensasse ainda com a idade do tempo da sua conversão.
E lá vai ele, trapézio fora, pedalando um monociclo a arder, enquanto faz malabarismo. Ele é joelhos, o latim, voluntariado, missa tridentina: tudo a girar num círculo de simplificações grosseiras que fariam corar o Homer Simpson.
É preciso lembrar ao Henrique os Padres do Deserto. Homens secos; de silêncio, de jejum, de oração. Eles ensinaram que o demónio não seria capaz de ler pensamentos, mas adivinhá-los-ia pelos gestos do corpo. Por isso, em todos os tempos, se deu tanta importância ao comportamento exterior. Mas talvez Henrique ache que o demónio não exista; talvez ainda não tenha dado por ele.
Mas mais: ajoelhar não é só um um gesto simbólico. É o corpo inteiro a confessar-se diante da presença real de Cristo na Eucaristia. É uma antecipação da prostração cósmica que São Paulo descreve aos Filipenses: “ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos céus, na terra e nos abismos”. Se até nos abismos…
Contudo, se o argumento espiritual ainda não bastar, fica o disciplinar: a Conferência Episcopal Portuguesa reviu há bem pouco tempo as disposições gerais sobre a posição do corpo durante a Missa. Apenas uma — uma — está ao critério do fiel: precisamente a comunhão. Em todos os outros momentos, a Igreja determina quando se está de pé, sentado ou de joelhos. Portanto, Henrique, deixe os seus irmãos comungarem em paz, que nisso não há birra, há liberdade.
Depois, como quem não quer a coisa, reduz o latim a uma “terceira camada”. Como se fosse pó. Uma excentricidade estética. É a malícia do costume: se há quem o venere por ser antigo, por que não grego ou aramaico, que estão ainda mais perto da fonte? É uma caricatura. E é desonesta. O ponto não está em procurar a língua mais antiga, como se de uma expedição arqueológica se tratasse. Trata-se, sim, de dar continuidade a uma tradição que os séculos amadureceram, que fez do latim a sua forma plena. Como se fosse uma catedral: distinto, universal, imutável. O amor ao latim representa a fidelidade a uma herança que a Igreja guardou durante séculos e que só foi (abruptamente) interrompida há meia dúzia de décadas. Outras religiões entendem-no: os judeus rezam em hebraico, os ortodoxos em grego bizantino ou eslavónico, línguas que também já não são correntes. E ninguém lhe chama ignorância. Pelo menos por enquanto.
E então vem o voluntariado. A métrica absoluta da fé calculada em escuteiros e bancos alimentares. Como se a Igreja fosse uma ONG de assistência social. Não me interpretem mal. Nada contra o voluntariado. O Henrique Raposo é que estabeleceu a relação entre piedade pomposa e baixa de números do voluntariado. Esquecendo aquele dia em casa de Lázaro. Maria de Betânia derramou um perfume caríssimo sobre os pés de Jesus. E Judas disse: “Por que razão não se vendeu esse bálsamo por trezentos denários e se deu aos pobres?” Repararam bem? Nada menos: parecia o Henrique a falar. Foi a primeira vez que alguém ousou reduzir a fé ao útil. E Cristo calou Judas. Respondeu que o gesto gratuito é que estava a valer. E, na noite seguinte, ajoelhou-se Ele próprio, lavando os pés dos discípulos. Do gesto supérfluo, inútil aos olhos de Judas, brotou o próprio sacramento.
Antes, já os Magos haviam procurado um Menino. Precisava de tudo e não Lhe levaram nada que servisse. Parece impossível: em vez de leite ou roupas, ouro, incenso e mirra; ínsígnias de Rei, Profeta e Sacerdote. É que nem o Deus pobre dispensaria a celebração da Sua glória. À luz de Raposo seria snobeira, pose; um equívoco. Pois foi aí que nasceu a liturgia.
O Henrique tem uma atracção fatal pelo apanhado genérico. E quando escreve estas coisas, desta maneira, desaparecem o historiador e o católico. Em seu lugar fica a professora de Geografia do oitavo ano: dedo em riste, voz aguda, aplicando um ralhete à turma, como se fosse um conteúdo programático.
Na escrita como na liturgia e, de resto, como em tudo na vida, não é tanto o que se faz, mas como se faz. Não é tanto o que se diz, mas como se diz. Ou, na feliz formulação de Cristina Campo, “não é a acção, mas a liturgia da acção”. Como eu, agora, escrevendo este texto. Podia ser mais acintoso ou mais suave. Estou a tentar ser fraterno.
Sei de quem se ajoelhe e de quem fique de pé, sei de quem receba a comunhão na mão e de quem escolha não comungar. Na Igreja, enquanto Deus quiser e o homem permitir, haverá lugar para toda a sorte de pecadores. Até para o Henrique. Até para mim.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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