A chegada a um lugar novo tem tanto de excitante quanto de aterrador.
Os lugares novos da vida esperam-nos com desafios exigentes, que requerem adaptação e transformação pessoal para que a viagem valha a pena. Falhar resulta em estagnação, e no ressentimento próprio de quem fica preso ao nem cá, nem lá.
O migrante, quando chega ao novo destino, pertence automaticamente ao grupo dos outros. É um estranho em período de avaliação, que tem que provar o seu valor e boas intenções para “merecer” o seu lugar no novo país.
É como voltar aos tempos intensos de escola, em que tivemos que formar novas amizades, decidir a que grupos queríamos pertencer, e tentar perceber o que fazer para sermos aceites. A migração é mais ou menos isto, versão adulta e politicamente correcta.
Durante os primeiros tempos travam-se batalhas subtis em várias frentes até recebermos a medalha de honra. Até que nos vejam como pessoa de confiança. Afinal, somos intrusos. Somos os que chegámos para supostamente roubar os empregos, as oportunidades e os bons partidos.
Eu travei as minhas e fui ganhando.
Dito isto, os Neozelandeses são abertos a outras culturas. São interessados, receptivos, calorosos e bem humorados. Mas, também eles, têm os seus receios relativamente aos imigrantes, ainda que em muito menor escala comparativamente ao Reino Unido, a Europa e os Estados Unidos. O maior (que é quase de certeza um fenómeno global) é o da ameaça à sua identidade.
Que venham os imigrantes, sim, mas que não se ceda mais território no que toca a tradições e ao modo de vida kiwi.
Aqui olham-se de lado os asiáticos. Porque vêm comprar tudo, porque não falam bem a língua, porque não se inserem, porque até em alguns infantários já se aprendem canções chinesas, porque já há tabuletas em chinês em Auckland – a lista continua.
É comum ouvir coisas deste género da boca de amigos e família kiwis. Mas será verdade?
O mais curioso é que, passados alguns anos por cá, também dei por mim a pensar assim. Também eu comecei a julgar estes asiáticos, com medo que este paraíso perdesse o que tem de melhor para acomodar os forasteiros que resistem adoptar os costumes neozelandeses e impor os seus.
Nāo é que estas coisas nāo tenham um fundo de verdade. Vê-se de tudo. E convém esclarecer que acredito na preservação desta identidade tão preciosa.
Mas aqui está a maior ironia: também eu sou imigrante, e será que sou assim tão diferente destes asiáticos? E o que separa os imigrantes de primeira dos de segunda? Serei, também eu, uma ameaça, com a comida portuguesa que cozinho, com o nível de inglês que falo, com o fado que passa nos jantares de amigos, com o convívio com outros portugueses?
É fácil usar rótulos sem pensarmos nas consequências e na separação que elas causam entre as pessoas. Afinal quem somos, se não uma mistura de raças e povos?
No meu grupo imediato de amigos há uma vietnamita e uma chinesa. Na minha rua, um casal da Malásia e um casal de chineses. Nenhum fala inglês perfeito, mas todos têm o amor e respeito pelo país e as pessoas que os acolhem em comum. Com o bónus de trazerem o sabor da sua terra para nos alargar os horizontes e tornar a vida na Nova Zelândia mais rica.
Mas, é claro, a ameaça são os outros asiáticos, e não os que conhecemos pessoalmente. Esses, absolvemos e rotulamos como a excepção, quando, se virmos bem as coisas, é o contrário. A percentagem da humanidade que se porta como lixo é mínima. A questão é que estas pessoas ou grupos têm mais tempo de antena e alimentam o nosso medo irracional dos outros. E isto passa-se pelo mundo inteiro.
A sorte, é que aqui isto quase passa despercebido. Porque os neozelandeses vivem à letra o mote colectivo “she’ll be alright, mate”. Mas é triste o que se vê noutras partes do globo.
Quanto mais conheço do mundo, mais me convenço que estes medos são inerentes ao ser humano, e largamente uma questão de perspectiva pessoal, independentemente de onde nascemos e crescemos. Acima de tudo, cada vez mais acredito que há espaço para tudo e para todos.
As mudanças geográficas têm disto: ajudam-nos a descobrir do que somos feitos e a questionarmos aquilo que pensávamos saber sobre o mundo, sobre nós e sobre os outros.