“They call it Africa. We call it home.” Um banco usou esta frase para conquistar o seu espaço. Mas este espaço não se conquista, vive-se. E o meu desafio é tentar que as minhas vivências sejam tão claras para vocês, quanto o são para mim. Estrear um espaço de espaços e vivências é uma responsabilidade grande. Escrevê-lo exige que me debruce enquanto leitor, faça o pino, pense como pensa quem por detrás de um par de olhos me analisa e mantendo sempre a esperança que consiga ir agarrando, linha à linha, o que de mais valioso um leitor tem para dar: a sua atenção.
A propósito do centenário da morte de Mário Sá-Carneiro, lembrei-me destes dois versos: um pouco mais de sol – eu era brasa, um pouco mais de azul – eu era além. Nós que viajamos por trabalho, que arrumamos malas no frio para irmos para o calor, que temos que pensar em tudo o que nos pode fazer falta, excluindo os amigos e a casa e o conforto e a família… Nós que nos aventuramos a nunca mais regressar, sem que a partida seja um desejo, nós que vos olhamos de longe com a inveja e a saudade, mas que quando regressamos nos sentimos presos, a mais, e com saudades da terra madrasta… E não, não é saudosismo, é uma sorte! Considero-me um sortudo ter tido esta oportunidade de pôr um pé fora da minha zona profissional de conforto. Ver crescer um país e ser, entre tantos outros, uma ajuda, uma referência, um professor, um aluno, enfim, poder olhar daqui a umas décadas e saber-me também nesta história que é feita todos os dias. Ajudou-me um ano de Erasmus, em Bona, cidade alemã. Ajudou-me ter que me adaptar a outras culturas, chegar a consensos extra-culturais, que vão muito além da língua, atravessam a forma de pensar, de estar, códigos de educação tão diferentes. Nesse ano aprendemos todos o valor da amizade e que para a verdadeira amizade não há fronteiras, não há limites, nem distância que permita o esquecimento. Aprendemos todos que é possível nações unirem-se e que isso só depende de pessoas com espírito, presença e abertura. A Alemanha ensinou-me a amar um Portugal pobrezinho, de xailes negros, de muita emigração, das gaiolas douradas, mas que tinha um mar que nos une ao mundo, um sol que nos cora e nos faz sorrir, uma hospitalidade única. Ensinou-me a ver o bom, o óptimo e a aceitar o mau, porque os países são como as pessoas, nos defeitos e nas qualidades. E esse tempo ficou-me sempre na memória, esse tempo ainda me faz deliciar quando busco vivências no baú. Dez anos mais tarde, já a trabalhar, surgiu a oportunidade Angola. O medo misturado com a curiosidade fez-me por o dedo no ar e aceitar o desafio. E parecia um tolinho, porque nas primeiras semanas tudo me deixava espantado, curioso, ávido de tentar perceber o que motiva comportamentos e culturas, linguagens, gestos, cores, códigos tão diferentes do meu, apesar de uma presença de quatro séculos. Trinta anos depois, os portugueses regressavam, já não para uma província, mas para uma nação estrangeira, independente, e que, tirando a língua e muitas outras coisas, tanto mais se estranhava. Hoje, espreitando o título lá em cima… mais do que a África do mundo, esta é, também me atrevo a dizer, uma casa minha.
Prometo que daqui virão muitas histórias. Mas só para que percebam a importância dos sítios para as almas, estava eu um dia a chegar à cidade (aqui cidade é Luanda), apenas um entre centenas de carros nas filas estáticas que assolam as metrópoles, de ar condicionado ligado, 37 graus, 8h10 da manhã, com duas horas de assento, já quadrado, a escutar música e tocam uma conhecida cantora brasileira. Nesse dia percebi que não é só a coca-cola que tem indicações para ser bebida: muito gelo e limão, mas também as músicas precisam do seu cenário, ideal, para que se entenda o que é um calor certo, uma humidade no ponto e um sol que nos inunda. E para abrir o apetite do que virá por aí, numa conversa de jantar tardio com outros trinta e tal graus, uma amiga explicou-me o que eram, em Angola, os amigos: cômé, cômé (sim, sou sempre muito curioso e pergunto até entender e cômé é tão simplesmente a forma coloquial de dizer como é? Tudo bem?). – Oh Zé, não sabes?! Então são aqueles que quando te cruzas com eles dizes: cômé? E eles respondem-te: cômé! Ou seja, são os conhecidos que coleccionamos na vida.
O poema de Mário Sá-carneiro, de onde retirei os dois versos, chama-se Dispersão. Eu gosto de me dispersar pelos espaços além do meu país, pois é quanto mais me encontro! Até breve…