Qual é o prazo de validade de uma mensagem de esperança? A pergunta é de resposta cada vez mais difícil, mas tudo indica que o prazo estará associado ao tempo que demora a concretizar-se uma mudança. Com as consequências que todos sabemos: as mudanças demoram muito tempo a ser feitas e, na maior parte dos casos, a produzir efeitos visíveis, enquanto o sentimento de esperança rapidamente se desvanece e pode ser, até, depressa substituído pela angústia, a raiva e a revolta.
O que aconteceu no Reino Unido é a prova eloquente de tudo isto. Em menos de dois anos, o líder trabalhista Keir Starmer subiu ao paraíso e desceu abruptamente para o inferno. Em julho de 2024, de forma arrasadora, ele pôs fim a uma era de 14 anos de domínio conservador, conquistando 441 dos 650 lugares da Câmara dos Comuns. Na semana passada, o mesmo Partido Trabalhista sofreu uma “derrota humilhante” nas eleições locais. Para piorar, levou uma “sova” em muitos municípios da antiga cintura industrial, que era tradicionalmente um bastião trabalhista, por parte do Reform UK, liderado pelo populista de direita Nigel Farage, o homem que, há uma década, juntamente com Boris Johnson, impulsionou o Brexit, através de uma campanha assente numa série de mentiras e falsidades. E, ainda por cima, em partes de Londres e noutros círculos urbanos, que tinham sido o foco da estratégia de Starmer, os trabalhistas foram ultrapassados pelos Verdes, que enveredaram, nos últimos meses, por uma campanha que deixou de estar centrada apenas nos temas ambientais, e passou a defender políticas muito mais à esquerda, em todos os domínios, nomeadamente o económico.
O desastre foi de tal magnitude que o homem que, há apenas 22 meses, parecia ir iniciar uma nova e vibrante era de poder trabalhista entre os britânicos, está agora já sob fogo cerrado internamente. Poucas horas depois de conhecidos os resultados das eleições locais, as armas foram retiradas dos armários e começaram já a afinar-se estratégias para encontrar um novo líder, capaz de substituir Starmer a curto prazo.
Esta ascensão e queda de Keir Starmer, em velocidade acelerada, não é um fenómeno isolado, nos dias que correm. Muito pelo contrário. É cada vez mais o padrão de uma era em que os chamados “períodos de graça” para os novos governantes foram comprimidos à velocidade de uma estrela engolida por um buraco negro, nos confins do Universo. E, como aí acontece, também sem hipótese de redenção – a não ser por erros do principal adversário ou por uma circunstância excecional externa (como aconteceu no Canadá e na Austrália, graças ao “efeito anti-Trump”).
Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz, eleito há apenas um ano, está também a sofrer as agruras da impopularidade. O mesmo castigo que sofreu Emmanuel Macron depois da sua reeleição. E, na verdade, poderíamos também incluir nesta lista o sinal dado pelo eleitorado português quando atirou para quarto lugar o candidato presidencial Marques Mendes, apoiado pelo Governo de Luís Montenegro, não fossem as circunstâncias excecionais dessa eleição.
A verdade é que, um pouco por todo o mundo, os políticos deparam-se com o mesmo problema: a incapacidade de dar resposta, rápida e eficaz, aos principais desafios que as sociedades enfrentam. Por uma razão simples e objetiva: não há soluções imediatas para resolver a escassez de habitação a preços acessíveis para a maioria das pessoas, como também não há, em especial no atual estado do mundo, poções mágicas para fazer disparar o crescimento económico e, com isso, aumentar o rendimento das famílias e aliviar o custo de vida.
Em qualquer lado, como se tornou norma, quem ganha eleições procura sempre apresentar slogans e programas que tragam, implícita, uma sensação de esperança e de mudança. Como as mudanças não se concretizam, a esperança torna-se cada vez mais efémera. E, infelizmente, é facilmente substituível pelo desencanto, a crispação e a revolta.
Mais do que qualquer outra, a principal ameaça a um regime democrático é o desencanto dos cidadãos com a democracia – que faz depois crescer os populismos. Para o evitar, seria melhor que os democratas não criassem falsas esperanças. E que, ao mesmo tempo, soubessem fazer as verdadeiras mudanças. Aquelas que não deixam morrer a esperança.