Há momentos em que é preciso lembrar o óbvio. Especialmente quando as atenções insistem em continuar concentradas no acessório, naquilo que gera tensão e ruído, mas que depois, no fim, não passa de uma espécie de realidade paralela. E o óbvio é, neste caso, escandalosamente óbvio: António José Seguro não só passou a ser o Presidente eleito com o maior número de votos de sempre, como ainda por cima o fez com o País debaixo de um temporal como há muito não se via. E, “pormenor” nem sempre valorizado, conseguiu recolher mais do dobro dos votos do seu adversário.
Já todos sabemos como tudo aconteceu, mas nesta era de emoções fugazes e de conclusões efémeras, convém sublinhar o óbvio. O que, neste caso, significa recordar que António José Seguro foi o candidato que, do princípio ao fim, manteve uma postura e um discurso mais claramente em contracorrente com o estilo de debate e de combate político que, desde há uma década, se tornou norma em Portugal – o mesmo que, no fundo, permitiu a ascensão de André Ventura. Durante meses, Seguro foi considerado sem carisma, desvalorizaram-se quase sempre as suas prestações nos debates e, mesmo hoje, ninguém se lembra da sua estratégia nas redes sociais nem de alguma frase que, nos discursos e intervenções públicas, tenha deixado para a posteridade. Mesmo assim, insistamos no óbvio, teve o dobro dos votos de André Ventura, que é o campeão das “entrevistas exclusivas” em todos os canais de TV, o “rei” do TikTok e das redes sociais e o político com mais cartazes no País – mesmo que tenha sido obrigado a retirar, por ordem dos tribunais, os mais declaradamente ofensivos e, por isso mesmo, impactantes.
A força de António José Seguro acabou por ser aquilo que, durante meses, muitos consideraram ser a sua fraqueza: a recusa em contribuir para o ruído, tantas vezes tóxico, que domina o debate político; a insistência em manter-se centrado na moderação; a sabedoria de nunca perder uma autoimposta postura de Estado, que escolheu como traço principal da sua campanha. Com isso, soube transmitir confiança, seriedade, ponderação e, acima de tudo, um elevado sentido de decência. Esse contraste face a André Ventura foi a sua poção mágica. Acrescida de uma força ainda maior, que os eleitores quiseram fazer questão de demonstrar nas urnas: a esmagadora maioria dos portugueses continua a querer um País democrático, em que se respeitem as liberdades, os direitos humanos, a separação de poderes e todos os princípios fundacionais inscritos na Constituição.
Na hora da verdade, há sempre quem prefira olhar para o crescimento dos votos em André Ventura. Mas que isso não nos desfoque do óbvio. Dois terços dos votos expressos foram para António José Seguro e para aquilo que ele representou nesta eleição: a defesa do regime democrático e a convicção de que, ao contrário do que dizia o candidato da extrema-direita, os “últimos 50 anos” foram mesmo os melhores de sempre em Portugal.
É tempo, por isso, de começar a prestar mais atenção aos eleitores que, repetidamente e em todas as eleições, têm recusado alinhar com a proposta extremista do Chega. Escrevi isso mesmo aqui, neste espaço, em junho, quando considerei que, embora seja preciso compreender as razões que levam os eleitores a optar por um partido antidemocrático, eles não podem transformar-se no centro do debate político. E, muito menos, que as bandeiras do Chega, como a corrupção, a insegurança e a imigração, possam transformar-se na cartilha que tem de estar presente em todas as intervenções políticas ou nas entrevistas aos outros líderes partidários. Especialmente, quando essa agenda retira depois espaço e tempo de antena a temas fulcrais para o desenvolvimento do País, como a educação, a economia, a saúde, a demografia, a inovação tecnológica, o ambiente ou a cultura.
A eleição de António José Seguro demonstra que a maioria dos portugueses é capaz de se unir para salvar a democracia. E é essa mesma democracia que precisa de ser aprofundada e melhorada, com maior justiça social, fazendo diminuir a desigualdade e proporcionando melhores condições de vida a toda a população. É esse, a partir de agora, o grande desafio de Seguro: contribuir para melhorar aquilo que os eleitores não quiseram ver ameaçado por um candidato extremista.
O Presidente eleito pode não ter o carisma, o rasgo ou o brilhantismo oratório de outros políticos. Pode até vir a ser repetidamente acusado de fazer discursos “chatos”, como depressa considerou Cotrim de Figueiredo, na própria noite eleitoral, em “estágio” para o seu novo papel de comentador político num canal de notícias na TV.
Mas essa é uma das grandes diferenças que se abrem neste novo ciclo político: com a maior votação de sempre e graças a um conjunto de circunstâncias extraordinárias, os portugueses elegeram um Presidente e não um comentador. Fizeram-no porque quiseram proteger algo que é muito mais importante do que as audiências de TV, os vídeos no TikTok ou o alcance nas redes sociais: defender o regime democrático e uma postura decente na forma de fazer e encarar a política. Com a força avassaladora de 66% dos votos.