Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, temos a certeza de que o próximo Presidente da República será eleito na segunda volta. E isso acontece exatos 40 anos depois da única disputa que também foi decidida no “prolongamento”, e por uma diferença de apenas 138 mil votantes (que quase podiam ser reunidos todos, nesses tempos, no antigo Estádio da Luz), num universo de mais de seis milhões de eleitores. Desta vez, segundo a perceção generalizada, temos cinco candidatos, com probabilidades muito semelhantes, a disputar o direito de ver o seu nome inscrito no boletim de voto, a 8 de fevereiro. Com uma particularidade inédita em toda a história das eleições democráticas: entre os cinco, qualquer combinação é possível sobre os dois que vão passar à fase final. Não há uma dupla que se destaque. E é preciso acrescentar que, com as margens de erro das sondagens que têm sido feitas, ninguém pode prever, com segurança e fundamentação, aquilo que vai acontecer. Será apenas um palpite – que vale o que valem os palpites, como todos sabemos quando jogamos no Euromilhões…
Esta situação é reflexo da forma como a paisagem política se transformou nos últimos anos, com maior diversidade partidária e uma menor fidelidade dos eleitores no momento do voto. Ao contrário do que acontecia noutros tempos, quase desapareceu o debate verdadeiramente ideológico, aquele que permite o confronto entre várias conceções e propostas para a evolução da sociedade. Em vez disso, temos uma predominância do chamado “economês”, quase sempre assente no chavão da carga fiscal, e o foco nos temas que permitem a polarização extremada, como sejam a segurança ou a imigração – neste caso, fruto de uma cartilha que se replica por entre os partidos populistas de todo o mundo, mas que acaba por contagiar a agenda mediática e o debate público.
Assim, e tendo em conta a história e o perfil dos candidatos, tudo indica que estas serão as eleições em que os portugueses vão votar menos por convicção e mais por calculismo. Estas presidenciais, devido à quantidade de nomes e à diversidade de resultados ainda possíveis, transformaram-se numa espécie de jogo, com múltiplas variáveis, ainda por cima disputado em duas eliminatórias.
Pode ser que isso não seja mau. Em vez do voto por impulso ou por fidelidade, estas eleições obrigam a que os eleitores pensem mais, façam contas sobre o verdadeiro impacto da sua escolha e as consequências que esta pode ter para a segunda volta. Como não há resultados à partida garantidos, tudo é possível – daí tanta gente, a uma semana das eleições, continuar a dizer que ainda não sabe em quem votar.
De algo podemos ter, no entanto, a certeza: seja quem for o próximo Presidente da República, não será ele quem irá resolver os atrasos dramáticos das ambulâncias do INEM, acabar com as listas de espera nos hospitais, garantir que não faltam professores nas escolas públicas, solucionar a crise da habitação ou fazer algo que permita baixar o custo de vida, diminuir a desigualdade e aumentar a riqueza do País. Sempre foi assim, por mais que as campanhas eleitorais tentem, tantas vezes, criar a ilusão do contrário.
Nestes tempos conturbados que vivemos a nível mundial, marcados por uma polarização intensa e extremada, em que, de repente, parecemos estar todos divididos de forma irreconciliável, o Presidente da República pode ter, se quiser, um papel de absoluta importância: ser um promotor e um garante da unidade nacional e não um divisor incendiário, que apenas procura gerar conflitos. Pode ser também, se quiser e como a função obriga, o defensor dos valores democráticos e de respeito dos direitos humanos, inscritos na Constituição. E pode ser ainda, se souber, sólido nos valores e resistente ao facilitismo populista, um aglutinador da vontade popular, um defensor da justiça social e uma voz respeitada por uma larga maioria. Alguém que, no fundo, procure alargar a maioria conjuntural que irá elegê-lo na segunda volta, e não usá-la como trincheira para combater quem não votou nele.
É nisso que, se calhar, vale a pena pensar no momento de escolher em quem votar. Ao contrário do que se poderia pensar, nesta primeira volta todos os votos podem mesmo contar e ajudar a fazer a diferença. Mais do que nunca, e por causa das atuais circunstâncias, é melhor que sejam votos conscientes e não apenas por impulso. E, de preferência, bem informados. A democracia é disso que precisa.