São 28 debates, entre oito candidatos à Presidência da República, em 36 dias – a que terão de se juntar os duelos que, obrigatoriamente, ocorrerão na segunda volta, entre os dois finalistas. Para se ter uma ideia comparativa, o último Mundial de Futebol, no Catar, teve 64 jogos, entre 32 equipas, em 29 dias. No caso das presidenciais, no entanto, os confrontos não chegam a durar uma parte de um jogo de futebol (estão limitados, dizem, a 30 a 35 minutos), não permitem substituições e, claro, não têm VAR para repor a verdade de cada jogada. Mas, fora isso, tanto a maratona de debates eleitorais como as mais importantes competições desportivas obedecem, para quem os transmite, à mesma lógica de espetáculo: captar a atenção do público e mantê-lo preso à ação nos ecrãs de televisão, criando a ilusão de um momento único e irrepetível que, ainda por cima, pode ser determinante para o resultado final. É, convenhamos, uma proposta baseada num princípio irrecusável: o de nos convidarem para sermos testemunhas da História, com a possibilidade de podermos ver, em direto, momentos que podem ficar perpetuados no nosso imaginário coletivo – sejam eles a gaffe que destrói, instantaneamente, a reputação de um candidato até aí credível ou o remate inesperado do improvável Éder, na final do Europeu de 2016. Se estivermos atentos, podemos, mais tarde, dizer onde e com quem estávamos quando isso aconteceu – e nunca mais nos esqueceremos.
Nesta guerra permanente pela atenção, em que os algoritmos vão sinalizando as nossas reações a cada estímulo, os debates, como o futebol, não se limitam ao tempo do jogo. Eles são prolongados até à exaustão, tanto antes como depois de ocorrerem, com uma catadupa de previsões e uma igual torrente de opiniões sobre quem ganhou e quem perdeu. Tudo isto acompanhado das sempre inevitáveis sondagens, em que qualquer valor percentual serve para discorrer sobre o comportamento de cada candidato, mesmo quando estão todos empatados dentro da mesma margem de erro. Mas o que é preciso é manter a atenção desperta, não a deixar mudar de canal ou de assunto.
A verdade, no entanto, é que os debates são nas televisões, em formato horizontal, mas a mais longa campanha de presidenciais vai decidir-se nas redes sociais, em modo vertical, com todos em busca do vídeo de 30 segundos que se torne mais viral.
Em tempos de polarização extrema, estes 36 dias de debates vão ser utilizados por cada campanha como material grátis, que cada uma poderá usar a seu proveito. As imagens a que todos assistimos em direto, com a ilusão de estarmos a ser testemunhas da História, serão depois, imediatamente, editadas ao jeito de cada candidatura – tantas vezes sem respeito pela ordem cronológica nem pela veracidade das situações, mas sempre com o objetivo de reforçar a sua base de apoiantes. E a impressão que ficará de cada debate será muito mais moldada por esses vídeos nas redes sociais do que propriamente por aquilo a que assistimos. É essa a lógica do espetáculo – a mesma que, no futebol, leva a que procuremos sempre encontrar desculpas para a derrota da nossa equipa, com a emoção a prevalecer sobre a razão.
Os debates entre candidatos foram criados para esclarecer os eleitores. Com o tempo, transformaram-se em peças centrais das campanhas, ideais para moldar a imagem do político e, em simultâneo, despertar emoções entre os espectadores.
Nestas eleições, os debates vão servir, na primeira fase, para fortalecer ou manter a base de apoio de cada candidato. É por isso que, de certa forma, os nomes em destaque nos cartazes refletem o jogo de forças atualmente existente no Parlamento. E, como acontece no futebol, temos os que lutam por uma presença na final e os outros que apenas procuram não descer de divisão.
As suas bases de apoio, no entanto, quase nunca se cruzarão. Dificilmente, neste modelo, alguém mudará de opinião só por causa de um debate de 30 minutos em que, ainda por cima, se corre o risco de os temas em análise serem quase sempre os mesmos, levando ao cansaço da repetição – mas que, todavia, é ideal para o trabalho do algoritmo que manipula as escolhas daquilo que vemos e ouvimos. E é disso que se trata neste momento: mais do que pretenderem os nossos votos, os debates servem para ganharem a nossa atenção. The show must go on.