A dado passo do meu trajeto profissional, tive o privilégio de servir nos tribunais de Leiria, Marinha Grande, Pombal e Coimbra. Guardo dos meus colegas de então e das gentes desta zona do País a melhor das recordações. Também por isso, foi com redobrada consternação que assisti aos efeitos nefastos da tempestade que ali se abateu. Recentes imagens aéreas dão-nos real visão do impacto que atingiu a cidade e a região e a conclusão é só uma: ficaram irreconhecíveis. O pinhal histórico, outrora símbolo de proteção ambiental e identitária, surge agora esventrado pelo vento e pela chuva, como se séculos de planeamento tivessem desaparecido num só instante. O estádio municipal está virado do avesso, sem cobertura nem estruturas intactas, e o rio Lis transbordou, inundando ruas, invadindo casas e deixando marcas muito visíveis da força da tempestade.
É nesse cenário que a célebre frase — “Leiria não existe” — adquire um peso irónico e quase sombrio. Leiria existe de facto e, como a conheci, é alegre, ativa e pulsante. Porém, ficou muito ferida, desfigurada e vulnerável. Essa invisibilidade que se proclamava consistia, já então, numa profunda e marcante chamada de atenção para a necessidade de termos um país que se vire mais para o seu território como um todo e que se descentralize para se poder, efetivamente, valorizar, prosperar e até proteger.
E, de facto, parece ter sido necessária mais uma tragédia ambiental, humana e material para que se voltasse a constatar o que é evidente: Leiria não é invisível nem abstrata e está hoje a braços com uma destruição que impõe desafios urgentes e imediatos. A ironia da célebre frase transformou-se hoje, assim, num alerta e negar Leiria já não é possível, sobretudo tendo em conta as perdas humanas, as casas destruídas, as ruas inundadas e as famílias afetadas, tudo obrigando que se recoloquem as prioridades do Estado em cima do mapa, exigindo-se, mais que nunca, recursos, ação eficaz e planeamento, quer imediato quer futuro.
Todavia, se a tempestade revelou fragilidades do Estado, também mostrou o melhor da comunidade. Voluntários anónimos, vizinhos, associações locais, forças de segurança, militares, bombeiros, escuteiros e coletividades mobilizaram-se de imediato. Houve quem abrisse a porta de casa a desconhecidos, quem passasse dias a retirar lama de habitações, quem organizasse refeições, roupas, medicamentos e água. Muitos, mesmo tendo perdido quase tudo, encontraram força para ajudar os outros. Esta solidariedade é assim o reflexo de um tecido social vivo, capaz de reagir e de cuidar. Mas, no final do dia, não podemos esquecer que a generosidade da população não pode substituir o Estado, nem justificar a sua ausência ou lentidão.
Com a emergência inicial ainda longe de estar ultrapassada, começam a emergir outras necessidades igualmente prementes. Muitas casas continuam inabitáveis e as famílias sem meios para as reconstruir. Diversas empresas, negócios e infra-estruturas estão fortemente abalados, com empregos postos em causa. O apoio psicológico é escasso e a burocracia tendo em vista o estabelecimento de compensações é, pelo menos, percecionada como lenta e tardia.
Também os serviços públicos que servem as populações estão fortemente comprometidos. Os tribunais, por exemplo, que há anos se veem a braços com um edificado absolutamente deficiente e indigno, estão agora, e não apenas na zona de Leiria, em situação de degradação absoluta, com chuvas derramadas sem controlo para o seu interior, armazenadas sem sucesso em múltiplos baldes, com vidros partidos e salas de audiência e gabinetes completamente destruídos.
E é aqui que o País se testa novamente. Não basta agradecer aos voluntários nem fazer visitas de circunstância. É necessária assertividade e operância do Estado: reconhecer falhas, definir prioridades claras e coordenar respostas entre autarquias, proteção civil e administração central. A reconstrução não pode tornar-se um labirinto administrativo para quem já perdeu quase tudo e os serviços públicos devem retornar rapidamente à normalidade em condições mínimas de dignidade.
Aliás, toda esta questão ganha ainda mais relevância num contexto eleitoral. As eleições aproximam-se e multiplicam-se os discursos sobre resiliência. Mas para que as pessoas votem, precisam de algo em que acreditar. A confiança não se decreta, mas antes se constrói, sobretudo nos momentos difíceis. Kristin foi um desastre natural, mas a resposta — ou a falta dela — é também uma escolha política. Podemos tratar este episódio como mais uma tragédia episódica ou encará-lo como um alerta sério sobre adaptação climática, planeamento territorial, proteção civil e justiça social. As populações mais afetadas são quase sempre as mais vulneráveis e ignorar isso é perpetuar o problema.
.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.