Quando Nadia Murad tinha apenas 21 anos, a sua vida mudou de forma brutal e irreversível. Em 2014, no Iraque, militantes do Daesh invadiram a sua aldeia natal, Kocho, mataram familiares, separaram crianças das mães e capturaram mulheres jovens como ela. Nadia foi feita prisioneira, violada repetidamente, vendida como escrava sexual e submetida a violência inimaginável durante meses. Conseguiu fugir quase por milagre e, quando finalmente encontrou segurança, tomou uma decisão que mudaria não só a sua vida, mas a de milhares de mulheres: decidiu contar a verdade ao mundo.
A sua coragem transformou-a, assim, numa das vozes mais influentes na defesa das vítimas de violência sexual e numa referência global na luta pelos direitos humanos. Ao testemunhar nas Nações Unidas e em parlamentos internacionais, Nadia tornou-se um símbolo de resistência e força. Em 2016, recebeu o Prémio de Direitos Humanos Vaclav Havel do Conselho da Europa. Em 2017, escreveu e publicou o livro “The Last Girl”, que relata a sua história em cativeiro. Em 2018, recebeu o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho na denúncia e combate da violência usada como arma de guerra. A sua história é real, dolorosa, profundamente humana e, de forma crua, demonstra-nos porque vale a pena continuar a assinalar, a 25 de novembro, o Dia Internacional para a Erradicação da Violência contra as Mulheres.
Proclamado pela ONU em 1999, este Dia Internacional tem por objetivo primordial alertar para a violência física, psicológica, sexual e social que atinge as mulheres, naquilo que é uma das violações de direitos humanos mais frequentes e generalizadas no mundo inteiro. Na verdade, a dolorosa história de Nadia continua a persistir com um testemunho e um alerta que nos mostra que a violência contra as mulheres, por vezes em proporções grotescas, é ainda hoje uma realidade global, multifacetada e persistente, que atravessa culturas, classes sociais e gerações, assumindo formas diversas, muitas delas também preocupantes porque silenciosas.
Na verdade, pese embora a violência física continue a ser face mais visível deste fenómeno, está longe de ser a única. A violência psicológica – baseada em humilhações, insultos, controlo, ameaças e manipulação – também é igualmente corrosiva da saúde, da dignidade e da autoestima, muitas vezes de forma até mais profunda do que qualquer agressão física. Por outro lado, a violência sexual permanece ainda hoje como uma das formas mais silenciadas, sobretudo em contextos de relações íntimas, em que imperam subversões ditadas pelo domínio do outro. Também a violência económica merece preocupação, dado que se trata de uma modalidade de agressão que impede a autonomia e aprisiona mulheres em relações assentes na dependência e na subjugação. Por outro lado, cumpre assinalar o fenómeno da violência digital, que inclui, como hoje é amplamente difundido, a perseguição online, a chantagem e a divulgação não consentida de imagens, representando desafios cada vez mais urgentes. Finalmente, não podemos olvidar a própria violência institucional, que ocorre quando os sistemas de apoio, justiça ou saúde falham no acolhimento e proteção das vítimas, contribuindo para o seu sofrimento e revitimização.
Na verdade, na maioria das situações, nenhuma destas formas de violência acontece isoladamente. Muitas vezes acumulam-se, reforçam-se e prolongam-se através de mecanismos sociais e culturais que historicamente normalizaram a desigualdade. Os dados disponíveis para Portugal são, nesta matéria, muito preocupantes. Só em 2025, e de acordo com dados válidos até 30 de setembro, é já sabido que foram 19 as vítimas de homicídio em contexto de violência domésticas, das quais 16 são mulheres. Por sua vez, entre julho e setembro, foram acolhidas na Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica 1486 pessoas, sendo 794 mulheres, 670 crianças e 22 homens. E note-se que nestes dados, são apenas os relativos a uma face do fenómeno, não se contabilizando aqui as inúmeras outras situações de violência já enunciadas, muitas delas escondidas nas silenciosas cifras negras das situações jamais denunciadas.
Por isso, o combate à violência contra as mulheres não pode ser encarado como um problema pessoal, privado ou restrito à vítima. É uma responsabilidade coletiva. A comunidade tem um papel determinante na prevenção e intervenção, tanto mais que o imobilismo, nesta como em tantas outras áreas, apenas favorece a perpetuação do estado de coisas. Com efeito, um dos maiores problemas que este combate enfrenta começa, desde logo, por uma certa apatia e indiferença geral, designadamente quando os membros da comunidade não se pretendem “meter”, acabando por contribuir como sendo parte do problema e não da solução. É por isso fundamental fomentarmos uma cultura de alerta e atenção, para que a comunidade se mantenha consciente, informada e solidária nesta matéria.
Por outro lado, é fundamental que os sistemas de denúncia das situações, de investigação criminal e de apoio às vítimas seja dotado dos meios materiais e humanos que permitam garantir que este tema seja tratado de forma especializada, com respostas rápidas que podem fazer a diferença até para salvar vidas. É igualmente necessário investir em políticas públicas eficazes, reforçar recursos, garantir casas de abrigo, melhorar serviços de apoio e atuar com rapidez e eficiência ao nível do sistema de justiça.
Relevante é, também, ter a consciência de que nenhuma estratégia terá impacto duradouro sem uma aposta séria na educação. A violência contra as mulheres tem raízes profundas: desigualdades de género, estereótipos sobre papéis masculinos e femininos, conceções distorcidas de poder, modelos de masculinidade centrados na dominação, preconceitos culturais que se mantêm de geração em geração. A educação é a ferramenta mais poderosa para transformar estas bases. É essencial ensinar desde cedo o respeito, a igualdade e a empatia; explicar às crianças e jovens que o consentimento é fundamental; promover a ideia de que relações saudáveis se constroem sem controlo, ciúme ou agressão; reforçar as bases para reconhecimento do valor e dos direitos de cada um. Simultaneamente, é indispensável educar para a rejeição dos comportamentos abusivos, para a compreensão de dinâmicas de violência e para a adoção de modelos relacionais positivos, assentes no respeito e na cooperação, e não no poder.
Por tudo isso, um dia que evoca a erradicação da violência não pode deixar de ser, também, um dia de sobressalto que nos deve impelir no sentido da ação. Ação coletiva pelos direitos humanos e pela afirmação de que só com solidariedade, educação e justiça poderemos construir um futuro onde histórias como a de Nadia deixem de existir.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.