Vivemos numa era em que os avanços tecnológicos tendem a ser vendidos como os grandes contribuintes para o avanço da humanidade. E não haja dúvida que muitos dos exponenciais avanços tecnológicos que acumulamos desde a Revolução Industrial têm permitido que tenhamos, hoje, uma vida melhor do que no passado.
Ao mesmo tempo, sempre houve preocupações que esses mesmos avanços tecnológicos fossem destruir empregos, aumentar desigualdades sociais e económicas ou criar novos paradigmas culturais que poriam em causa a estabilidade da sociedade e da natureza.
Hoje, estes debates têm sido tidos relativamente às novidades tecnológicas que pautam o presente: a bioengenharia, as redes sociais, a computação quântica ou a inteligência artificial. E tem sido esta última a receber mais atenção nas discussões públicas. É que tem-se a perceção de que se está perante um novo ponto de inflexão tecnológico, capaz de gerar ruturas civilizacionais. Afinal, a IA ameaça suplantar o que a humanidade mais tinha como seu exclusivo: a inteligência e a consciência.
Está patente o medo de que estejamos a criar uma tecnologia sobre a qual venhamos a perder o controlo. E que esse momento possa até já ter chegado, ou que chegue rapidamente, sem que disso nos apercebamos. Teme-se desemprego em massa e subjugação do humano à máquina ou a quem controlar essas tecnologias.
Porém, este processo não está a ser imposto por nenhum governo ditatorial, está a ser alimentado pela nossa adesão ao comodismo ou à necessidade de fazer cada vez mais e mais rápido.
A este respeito, os agentes de IA, que irão massificar-se em breve, são paradigmáticos: IA que toma decisões por nós, com a promessa de saberem melhor do que nós o que é melhor para nós.
Apesar do perfume distópico, a tentação é grande: quem hoje tem que fazer escolhas, sabe quanto tempo e atenção consome para chegar a uma decisão: as hipótese infinitas com que nos confrontamos quando queremos algo, das compras do supermercado à escolha da série a assistir na plataforma de streaming, passando pela dating app ou a decisão do hotel ou voos que escolhemos para as férias, produzem um custo de processamento tal que, em vez de ficarmos mais felizes, por podermos adaptar finamente a escolha à nossa preferência, acabamos menos felizes tal é o peso do processo de escolha e o custo de oportunidade de termos deixado para trás a segunda melhor opção. Este paradoxo da escolha identificado pelo psicólogo Barry Schwartz pode bem ser suprido por um agente de IA que decide por nós e nos apresenta os factos consumados: “caríssimo, com as preferências que me deste, hoje vais ver esta série, sair com esta pessoa, jantar neste restaurante e receber o cabaz de compras que mais se adapta ao teu gosto e é melhor para a tua saúde”.
No mundo profissional, o apelo será igual ou maior: ter um agente de IA que substitui todos os funcionários administrativos, e muitas decisões de gestão, trará enormes eficiências. Que empresa lhes resistirá?
Este processo já está em curso, e muita da nossa vida já é decidida por inteligências artificiais e algoritmos que condicionam decisivamente as nossas escolhas e liberdade.
Para os crentes dogmáticos na narrativa do livre arbítrio, este parece um filme de terror. Para os descrentes, como Sapolsky, este será apenas uma outra forma do nosso mecanismo biológico ser condicionado (se o livre arbítrio não existe, não pode diminuir).
No final das contas, interessará saber se ficaremos mais felizes. Poupanças de tempo e de espaço mental existirão. Mas será que as vamos usar para nos cultivarmos e fazermos o que nos dá mais prazer (à lá Agostinho da Silva), ou vamos atrofiar as nossas capacidades mentais e sufocar-nos cada vez mais nas pressões que nos rodeiam?
Soube-se que o Facebook sabia dos malefícios das redes sociais e os escondeu. Quem estuda e produz os agentes de IA poderá ter uma noção mais clara dos seus efeitos potenciais. Seria bom que esses efeitos fossem divulgados, para não termos surpresas desagradáveis.
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