Há pouco mais de um ano escrevi aqui, antes das eleições legislativas de 2024, que os programas eleitorais dos partidos políticos portugueses com assento parlamentar eram, basicamente, omissos relativamente ao conceito felicidade. Em concreto, dos oito partidos presentes na Assembleia da República, quatro não faziam nenhuma referência à palavra felicidade, nem à ciência que a estuda e seus resultados (PS, BE, PCP, Chega); nos outros quatro, a palavra felicidade surgia, mas pouco (uma ou duas vezes em cada um dos programas eleitorais de AD, PAN, Livre e IL).
Volvido um ano, inesperadamente (apesar da fragmentação parlamentar), voltamos a eleições legislativas. Entende-se que os partidos não tenham sentido necessidade de fazer grandes alterações nos seus programas e, no que toca à explicitação da felicidade, o panorama não melhorou: no programa do PS, surge uma vez a palavra felicidade, mas não como desígnio político, apenas para referir que “o nosso país teve a felicidade de dar origem a seis empresas unicórnio”; no do Chega, surge também uma vez, apenas na frase “Defendemos a família porque esta é um projeto de felicidade impresso no coração dos homens e mulheres”; no da IL, do BE, da CDU e do JPP está completamente ausente; é apenas nos programas da AD, PAN e Livre que a felicidade aparece com mais substância, com a AD a querer “Colocar Portugal no top 10 do ranking de felicidade medido pelo World Happiness Report, do Active Ageing Index e Age Watch Index”, o PAN a querer “Construir uma ferramenta para medição do bem-estar e felicidade da população, com base em processos participativos, que permita aferir, em cada ano, o que é mais importante a nível nacional, distrital e concelhio” e o Livre a querer “Diversificar os indicadores de desenvolvimento nacional, passando a incluir na monitorização e avaliação das políticas e da ação governativa indicadores de desenvolvimento sustentável, como o PIB Verde ou a Poupança Genuína, dando prioridade aos aspetos mais diretamente ligados ao ambiente, qualidade de vida, felicidade, saúde e bem-estar e reforçando a necessidade da sua produção na informação do sistema estatístico nacional.”
O que defendo é que a explicitação da palavra felicidade no contexto político não é uma decisão vã. Com o arsenal estatístico, de literatura científica e de índices de progresso/desenvolvimento disponíveis, os agentes políticos podem, com segurança científica, recorrer a esses dados para fazer análises de custo-benefício e definir metas de política. Se um determinado partido político entender que a felicidade é o objetivo maior da sociedade, já tem como aferir rigorosamente se as suas políticas e a sua performance está a conduzir a nação a mais ou menos felicidade.
No caso de Portugal, a posição que ocupa no Ranking Mundial da Felicidade é modesta, ficando abaixo do que seria de esperar face ao nosso nível de PIBpc.
Se a AD, que ganhou as eleições, quiser cumprir o que disse no seu programa a este respeito e quiser ver Portugal no top 10 do World Happiness Report tem muitas ferramentas científicas para trilhar esse caminho, não se devendo fiar na intuição antiga de que basta pôr o PIB a crescer para a felicidade aumentar. A “engenharia” é mais complicada do que isso, mas não encontro objetivo mais nobre e mobilizador do que desenhar políticas para tornar Portugal um dos países mais felizes do mundo.
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