No dia que antecedeu a noite inesquecível que iluminou Lisboa com uma trovoada brutal, o homem mais importante da minha vida fez a sua passagem. Não digo que faleceu porque é uma expressão que não gosto, não digo que partiu porque viverá sempre no meu coração, não digo que morreu, porque não é verdade. O Pai estava esgotado de viver, há muito que a doença lhe estava a ganhar, invadindo todos as células do seu corpo de forma manhosa e irreversível. Órgãos e músculos entraram em falência lenta e penosa, a quarentena acelerou tudo. Nesse dia diferente de todos os que já vivi, voei baixinho para o alcançar, mas não cheguei a tempo de o abraçar com vida. Apagou-se como uma velinha já sem pavio nos braços da mulher que sempre amou desde os 16 anos, minha mãe, e de uma cuidadora maravilhosa, a Jeanine, que nessa tarde me disse que o meu Pai tinha sido um presente para ela, por tudo o que aprendeu com ele, pela forma como ele amava a mulher, os filhos e os netos. Era um homem de uma cultura ímpar, de uma integridade à prova de uma bala, de uma delicadeza interior e exterior, de uma generosidade para com todos e de uma dignidade inabalável, até ao último suspiro.
A morte é inevitável, mas não é bonita, por isso quando fomos despedir-nos dele, os três irmãos, não nos demorámos. Prefiro guardar o Pai como ele era antes de estar doente, disse a minha irmã mais velha. Eu não. Eu guardo o meu Pai em todos os momentos, sem distinção, desde o tempo em que parecia uma torre, sempre elegante na sua discrição, a entrar em casa de fato completo, gravata e sapatos pretos de atacadores, com uma pasta rígida e um grande sorriso a dizer, querida, cheguei a casa, até à minha última visita, durante a qual voltei a agarrar uma das suas mãos e lhe fiz festas no cabelo durante algum tempo, o tempo necessário para lhe dar carinho e conforto, que é o mesmo carinho e conforto que recebemos em dobro, sempre que o damos àqueles que mais amamos.
A sua passagem não deixou ninguém surpreendido, contudo, a nossa família perdeu um dos seus dois pilares primordiais, e dói muito. Dói à minha mãe, que é a mulher mais sólida, estruturada e corajosa que conheço, dói aos meus irmãos e aos meus cunhados que eram como filhos para ele, dói aos netos que perderam o carinho e uma das mais importantes referências das suas vidas. E dói-me a mim, que era a mais nova, a caçula, aquela a quem ele fechava os olhos a disparates e tropelias, que ele ia buscar ao ballet e caminhava de mãos dadas com a alegria dos seis anos e totós no cabelo, a quem ele sempre incentivou a paixão pela escrita e deu coragem para arriscar um caminho menos percorrido, o da literatura, numa família de engenheiros, de professores e de gestores de empresas.
Foi uma vida cheia para ele e para todos o que fazemos parte da família, e o seu apelido é aquele pelo qual as pessoas me identificam. Existe um ADN em cada família. Na nossa, é muito forte. Na hora de cada filho ler na missa a homenagem que escreveu ao Pai, todos relatámos os mesmos episódios que eram espelho do seu caráter. Talvez o mais marcante tenha sido o facto de ter perdido a possibilidade de um carreira promissora numa multinacional antes do 25 de Abril por se recusar a denunciar um colega de trabalho à PIDE-DGS e, ironicamente, pouco tempo depois, voltar a ficar desempregado por ter sido visto na companhia de Diogo Freitas do Amaral com quem fundou o CDS. No célebre verão que também foi quente para nós, o meu Pai, que era o maior melómano que já conheci, comprou o single do Hino do Partido Comunista e foi assim que aos 10 anos aprendi a letra do Avante Camarada. Lembro-me de lhe perguntar, mas então não foram os comunistas que o despediram? E de ele responder, sim, mas vocês precisam de aprender o valor da liberdade.
Existem pessoas para quem a liberdade tem um preço, e para essas, perde o valor e, por isso mesmo, deixa de existir. Não há nada mais caro do que ser livre e independente, mas não imagino outra conduta, outro caminho. O mesmo acontece com a verdade, que é apenas uma derivação de um valor maior, a integridade. Sem integridade não há retidão, não há coragem, não há coração. Sem integridade, um caráter que não é mau pode falhar, por ganância, por vaidade, ou por medo. Estas linhas não servem para um obituário extenso ou para uma elegia inflamada, servem para que todos os homens que são Pais pensem que exemplo querem dar aos filhos, porque os exemplos marcam a nossa perceção da realidade para sempre, acabando por influenciar as nossas escolhas, os nossos amores, a nossa vida.
É por causa do meu Pai que gosto de homens altos, tímidos e inteligentes, é por causa do meu Pai que quando gosto, só consigo ver o bom das pessoas. Acredito que não é um defeito. É por causa do meu Pai que os ruídos mais belos da minha vida são as gargalhadas dos filhos e a chave a rodar à porta ao fim do dia, mesmo quando não isso acontece.
O pudor que sinto em relação à morte manteve a notícia discreta, e tive a sorte de quase ninguém falhar nos momentos mais tristes. Tive de tudo à minha porta e na minha mesa: comida, as minhas bolachas preferidas, mimos de pastelaria fina, flores, muito abraços, carinho genuíno dos amigos e o ombro incansável do meu filho, que é já um homem. Quase todos aqueles que são importantes estiveram e continuam a estar por perto, e quem me falhou, apenas deixou de ser importante.
Nessa noite, quando voltei para casa, assisti maravilhada ao grande espetáculo da Natureza, à descarga incalculável de energia daquela trovoada tão longa, e agradeci a Deus e ao Cosmos tamanha beleza. Não foi uma noite escura, como são quase todas as daqueles a quem falta uma peça no coração. A passagem do meu Pai foi festejada pela Natureza que ele tanto estudou e tanto amou.
É possível que, por ter recebido tanto amor dele durante toda a minha vida, sob tantas e tão belas formas, o que sinto no coração, antes e depois de tudo o que me acontece, é sempre amor e paz. A paz de dar o meu melhor todos os dias, aos outros e a mim mesma, porque é sabido que aquilo que fazemos aos outros e pelos outros estamos a fazer a nós próprios. A paz de saber que todos os dias tento ser a melhor filha, mãe, irmã e amiga, mesmo quando alguém me falha.
No fundo as pessoas não amam como querem, amam como podem, como aprenderam em pequenas, é o resultado da aculturação e do ADN de cada um. Não é bom nem mau, é o que é. Sinto e sei que tive muita sorte, porque ele foi o melhor professor do mundo no amor, na amizade, na família. Quem parte não nos deixa sós, dá-nos um pouco de si, leva um pouco de nós. E depois há aqueles que deixam muito. Por isso a palavra Pai foi sempre escrita em maiúscula nesta homenagem, porque há pais e há Pais e não são a mesma coisa. Eu aprendi com um dos melhores e é essa uma das grandes bênçãos com que a vida me agraciou. O luto é um processo estranho, há dias em que fica azul escuro, outros, da cor do céu a meio da tarde.
O importante é guardar o melhor daqueles que, neste ou noutro lugar, viverão para sempre no nosso coração.