Investigadores alemães descobriram símbolos gravados em artefactos com 40 mil anos que podem constituir uma forma primitiva de escrita. Linhas, pontos e cruzes em flautas, estatuetas e ferramentas. Admite-se que servissem para registar informação sobre o quotidiano dos primeiros Homo sapiens na Europa. Se assim for, quem sabe conterão os primeiros registos do mais antigo conflito da História: a fúria automobilista contra os adeptos do ciclismo.
Portugal é um país virado para o futuro – desde que esse futuro tenha quatro rodas, motor de combustão e estacionamento à porta. O investimento numa rede viável de transportes públicos arrasta-se, as alternativas são escassas e o automóvel continua a ser a espinha dorsal da mobilidade. Ou da falta dela. Não é que alguém deseje depender do carro. É a inércia e a falta de visão entre quem governa, apurada ao longo de décadas.
Não é preciso visitar uma cidade do século XXI para ver no Metro de Lisboa o teaser de uma rede de metro. Uma amostra promocional, espetada num palito. Quando comparado com os seus homólogos europeus, é um jogo colorido para se brincar aos maquinistas. Já fora da capital, a situação é ainda mais futurista: médias e pequenas cidades onde viver sem carro implica um exercício espiritual de desapego e, frequentemente, de miséria. Portugal é um país pequeno e de clima generoso que conseguiu o prodígio logístico de criar um grave problema de mobilidade.
Investir a sério na mobilidade do país ajudaria a atenuar uma fatia considerável dos nossos problemas. Uma rede moderna e acessível de transportes facilitaria o acesso à habitação, ao emprego, à cultura, ao ensino, à saúde mental. Libertaria milhões de horas atualmente frustradas em contemplação existencial nos engarrafamentos. Reduziria a poluição, o ruído e a experiência kafkiana, partilhada por milhares, de encontrar estacionamento.
É neste “salve-se quem puder” que meia dúzia de líricos decide deslocar-se de bicicleta. Menos por ideologia, mais por falta de opções. Para quem possa, compreende-se a preferência pelo desporto radical de galgar colinas perante a lata de sardinha no comboio suburbano, atrasado e cronicamente em serviços mínimos. Curiosamente, tornaram-se o alvo desta guerra milenar. Afinal, poucas coisas irritam tanto como ver alguém a pedalar em liberdade, mesmo que com certa dificuldade respiratória.
Não é de agora o conflito. Há cem anos, quando o automóvel começou a dominar as ruas, travou-se uma batalha intensa pela redefinição do espaço público. Durante décadas, as cidades foram concebidas em função do carro, relegando peões e ciclistas para as margens. Aquilo a que hoje assistimos em Portugal é apenas mais um capítulo dessa longa tradição – e a prevalência deste conflito é sintoma do nosso atraso.
É uma abordagem pré-histórica. O verdadeiro duelo não se trava entre automobilistas e ciclistas, mas entre quem ainda acredita num sistema centrado no automóvel individual e quem já percebeu que a mobilidade é um ecossistema. Não é uma subtração, é uma adição. Transportes públicos, bicicletas, carros, individuais ou partilhados, deslocações a pé – cada meio cumpre um propósito, conforme o momento, o dia, a distância e a necessidade. O erro nunca é haver alternativas. É não haver escolha.
Talvez os investigadores alemães ainda venham a descobrir, numa próxima escavação, o momento exato em que tudo se perdeu. Talvez consigam desvendar, numa estatueta milenar, o instante fatídico em que alguém inventou a roda e condenou a Humanidade a discutir o estacionamento por dezenas de milhares de anos. Ironia das ironias: foi o início do progresso, mas também foi o fim da paz. Desde então, nunca mais tivemos descanso. Bip biiiiip! Sai da frente, ó ciclista!
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