Sou e serei sempre fiel ao mil-folhas, mas aceito o bolo de arroz como símbolo de resistência à onda que está a fazer desaparecer as velhas pastelarias.
O modelo económico em vigor tem contribuído para substituir os típicos cafés, tascas e pastelarias por brunches, coffee labs e patisseries. Basta um passeio de dez minutos num centro urbano para o constatar. Há anos que escrevo sobre isto e há anos que o vemos repetir-se pelo mundo, nas cidades mais pressionadas pelo turismo de massas. Em Lisboa, a realidade é particularmente desoladora.
Em muito pouco tempo, os bairros têm visto desaparecer estes centros nevrálgicos da sua identidade, pequenas ágoras de esquina em que os vizinhos se acenavam, substituídos por negócios sem alma e sem raízes. Não é nostalgia de um passado romantizado – é a constatação de um modelo de cidade que deixa de pertencer a quem a habita para pertencer a quem apenas a consome.
Ora, num contexto em que as autarquias pouco ou nada fazem para proteger a autenticidade dos bairros, a sua cultura e a sua cidadania – quando não contribuem elas próprias para acelerar o processo em sentido contrário –, a resistência faz-se de pequenos gestos. Um desses gestos é o novo mapa do bolo de arroz, criado pela Associação Vizinhos de Lisboa.
Integrado na iniciativa “O último bolo de arroz de Lisboa”, este mapa convida os cidadãos a assinalar os cafés e pastelarias tradicionais do seu bairro com o objetivo de criar um registo vivo da memória da cidade. Qualquer um pode fazer as suas sugestões de estabelecimentos a incluir através do email geral@vizinhos.org .
Além de uma chamada de atenção para a importância de consumirmos nestes espaços se os quisermos preservar, é um reconhecimento justo à fibra dos muitos comerciantes que resistem à voragem da gentrificação – muitas vezes à custa da sua saúde, se não sempre. A associação anuncia a intenção de apresentar à Câmara Municipal de Lisboa uma proposta para criar um Plano de Proteção do Comércio Tradicional a partir das dificuldades apontadas pelos comerciantes.
É uma luta de David contra Golias. Uma luta para a qual, ironicamente e como já aqui escrevi, não podemos contar com aqueles que mais se promulgam paladinos da “cultura portuguesa”. Como sabemos, muitas vezes são os políticos com mais “patriotismo” na garganta quem mais está alinhado com os interesses dos que lucram à custa da coesão das comunidades. Esta é mais uma batalha da cidadania pelo direito à vida comunitária de bairro.
Além do mais, esta é uma prova de que a luta por direitos civis também se faz batendo manteiga e açúcar, juntando o ovo, o leite e a raspa de limão, incorporando as farinhas, o fermento e o açúcar polvilhado já na forma para levar ao forno. Longa vida ao bolo de arroz!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.