Trump age contra os interesses europeus, é essa a trágica realidade. A Europa tem de sair da negação.
As recentes investidas do presidente estadunidense contra o que restava do Direito Internacional não deixam dúvidas – se é que alguma vez as houve. Quando promete fazer do mundo great again, Trump está a pensar no século XIX. Está a pensar num mundo anterior à Carta das Nações Unidas (1945) e a sua conduta comprova-o em toda a linha. Basta olhar para a sua ação concreta nestes primeiros dez dias do novo ano.
Mas este texto não é sobre Trump. É sobre a Europa. Enquanto europeu, assisto com apreensão a um debate sobre a relação transatlântica que está frequentemente descentrado dos nossos interesses. O centro não é, ou não devia ser, Trump. O centro é, ou devia ser, a Europa. O futuro da Europa.
Até porque este não é o primeiro mandato de Trump e a intelligence europeia já teve tempo para perceber que o choque e a criação contínua de absurdos e factos mediáticos integram a sua estratégia para desorientar os adversários. Há que recentrar o debate.
O primeiro passo é reconhecer que a Europa errou catastroficamente ao alimentar este nível de dependência dos EUA, ao longo de décadas. Esta dependência transversal às áreas da Defesa, da Energia, da tecnologia e do sistema financeiro é o nervo primordial da presente situação da Europa no palco internacional. Dela resulta o dilema em que os líderes europeus – e, com eles, os cidadãos europeus – estão envoltos na reação ao novo cenário global.
Mas esta dependência é também cultural. Não falo apenas da importação em massa do que associamos ao melhor da cultura americana – como o cinema, a literatura ou a inovação tecnológica – ou ao pior – como o consumismo frenético e a fast food. Falo de uma mundividência hegemónica que o Velho Continente passou a seguir como Estrela Polar, de símbolos e valores que procurou reproduzir nas suas instituições e sociedades, para prejuízo da sua identidade e do dito “projeto europeu”, que perdeu o norte.
A natural admiração dos europeus pelos inegáveis contributos artísticos, tecnológicos, científicos e sociais dos EUA confundiu-se numa reverência cega ao modelo americano – cujo belo resultado está à vista. Tanto por lá, como por cá. Depois de tudo o que Trump já disse e concretizou contra os interesses europeus, depois de toda a hostilidade explícita, das ameaças constantes, a prevalência de tantos apoiantes de Trump do lado de cá do Atlântico está obviamente enquadrada nessa reverência. O futuro da Europa está em ver as coisas como elas são. Passará necessariamente pelo fortalecimento de um projeto próprio, independente e sustentável, assente num novo modelo europeu. Assente na diferenciação. Não na imitação.
Há, neste momento, milhões de americanos em pânico com o rumo do seu próprio país. Há milhões de americanos que, em 2026, desejam ver estabelecida a ordem assente na cooperação internacional para a paz, na segurança, na prosperidade económica e na defesa dos direitos humanos, no respeito pela soberania, na integridade territorial e na independência política dos Estados. Também esses americanos precisam de um sinal claro do lado de cá.
É o momento de a Europa retomar o rumo do seu projeto.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.