A União Europeia implementou um novo sistema digital de controlo de fronteiras para cidadãos extracomunitários, obrigatório desde outubro no espaço Schengen. Trocam-se os carimbos por registos eletrónicos com dois objetivos: evitar erros e reduzir tempos de espera. Só que, em Portugal, vemos dois resultados: mais erros e mais tempos de espera.
Nas palavras da ministra da Administração Interna, o sistema “não pifou, mas… por momentos, pifou”.
Tem sido recorrente. Esta terça-feira, voltaram a formar-se filas de cinco e seis horas no controlo de fronteiras no Aeroporto Humberto Delgado. Passageiros amontoados, voos perdidos, pilhas de bagagem e o fim do mundo em cuecas. A explicação oficial aponta uma falha num servidor, que coincidiu com a ativação dos quiosques eletrónicos para recolha biométrica. Ainda assim, nada temam: diz que existe um plano de contingência para o Natal.
Visto de fora, o caos tem graça. De fora do aeroporto, entenda-se, porque lá dentro ninguém se ri. O Aeroporto de Lisboa, a rebentar pelas costuras desde 1969 (data do primeiro estudo para o “novo aeroporto”), tem estreado a tecnologia europeia com resultados dignos de um piloto vendado. Não é uma falha isolada, é uma continuidade histórica. Quando se diz que devemos ter orgulho na nossa História e identidade, também é disto que falamos. Presumo que seja esta a tal cultura que os imigrantes têm de respeitar.
O novo sistema foi criado para acelerar processos, reforçar a segurança e acabar com o controlo manual dos carimbos. Para isso, exige-se infraestrutura tecnológica estável, integração de sistemas e recursos humanos preparados. Tudo coisas que, em tese, fazem sentido. O problema surge na tradução prática: tecnologia sensível aplicada num aeroporto sobrelotado, com margens mínimas e zero tolerância a falhas.
Não é que Portugal esteja totalmente sozinho, faites attention. Houve registos de atrasos e filas prolongadas noutros aeroportos europeus, nomeadamente em Bruxelas, nos primeiros dias de transição. Só que, em Lisboa, o problema repete-se há meses e já obrigou à criação de task forces, salas de crise, e agora, à ponderação de suspender o sistema. Que, mais uma vez, não pifou, mas… por momentos, pifou. Dava-nos jeito um vice-almirante com mais vagar.
A culpa também é do Natal, que todos os anos “se mete”. Mete-se o Natal, como se mete Agosto, e o regular funcionamento do país vê-se atacado por este tipo de fenómenos imprevisíveis. Com o Natal já à porta, admite-se interromper temporariamente o sistema para evitar o colapso total. Depois virá agosto e o verão, mas logo se vê. Janeiro há de ser mais calmo, se Deus quiser.
Pelo sim, pelo não, o velho carimbo não tem que enganar. Se tudo correr bem, não pifa. Ao contrário do sistema, que pifa. Ou melhor: por momentos, pifa.
Feliz Natal!
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.