Em 2022, 175 países iniciaram negociações para travar um dos maiores problemas ambientais da nossa era: os plásticos. Apesar de a maioria ter conseguido chegar a acordo, o tratado global foi chumbado esta semana por um pequeno grupo de países produtores de petróleo, entre os quais os EUA, a Rússia e a Arábia Saudita.
O objetivo era alcançar um acordo legalmente vinculativo – o Global Plastics Treaty – com medidas concretas para regular e limitar a poluição do plástico. O trabalho de três anos fracassou, por bloqueio minoritário.
Ninguém pode dizer que não sabe: os plásticos são neste momento um flagelo para a vida no planeta Terra. Trouxeram decerto inúmeras vantagens, mas a sua produção desenfreada gerou uma crise mundial. Todos os dias, consumimos toneladas de embalagens descartáveis que acabam empilhadas em aterros colossais, ilhas de plástico nos oceanos, detritos tóxicos nos solos e microplásticos na nossa comida, na água que bebemos, no ar que respiramos.
O nosso planeta está tão poluído que esses micro e nanoplásticos – partículas de plástico invisíveis a olho nu – já se encontram alojados no nosso corpo: nos pulmões, no sangue, no cérebro. Das pessoas saudáveis também. Já foram encontrados microplásticos no leite materno. O impacto dessa plastificação na nossa saúde ainda está a ser apurado, mas já há indícios preocupantes ligados ao risco de demência, diabetes e hipertensão. É uma pandemia a alastrar-se à vista de todos, sem que ninguém atue para a travar.
Também já todos vimos imagens terríveis do impacto desta poluição nos ecossistemas, na flora e na fauna. Dos animais aflitos – das tartarugas, dos ursos, dos pinguins – presos em montanhas de embalagens de plástico. Das águas poluídas, dos habitats arrasados. Espécies inteiras, afogadas em rótulos onde por vezes conseguimos distinguir logotipos das marcas que consumimos acriticamente – detidas por multinacionais a quem não é exigido um compromisso sério para reduzir o impacto irreversível que a sua atividade tem no nosso planeta.
Ver chumbada a tentativa de criar um acordo global para travar a poluição do plástico é uma tragédia neste contexto. É triste e desmoralizante. Mas não é inevitável: por mais que a agenda climática nunca tenha sido verdadeiramente levada a sério, são projetos políticos específicos quem está a enterrar qualquer possibilidade de avanço. São políticos de carne e osso quem se tem mexido para travar a luta pelo clima. Quem nega a evidência científica, quem ataca a informação isenta. São os líderes populistas quem mais tem sido o braço armado dos interesses económicos mais obscuros contra o clima. Dos barões dos combustíveis fósseis, do armamento e de outras indústrias nocivas para o ambiente e as sociedades. São essas forças políticas quem faz tudo para descredibilizar qualquer iniciativa pelo clima – contra o interesse das pessoas. Infelizmente, muitas vão na lengalenga.
E muitas outras, que não vão, estarão de férias. Aproveitando a época do ano em que mais rumamos às praias, às serras e aos rios, proponho um primeiro passo: acabar com a negação. Desviar o olhar não vai resolver o problema. A ideia de que não existe qualquer problema é apelativa – quem nos dera! –, mas vai contra toda a evidência científica. Precisamos de novas lideranças, humanistas, progressistas e ecologistas, com coragem para defender os interesses de todos. A resposta tem de ser coordenada e baseada em factos. Caso contrário, um dia será tarde demais. E já não valerá a pena, quando por fim desenterrarmos a cabeça da areia. Além do mais, a areia está cheia de plásticos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.