A fusão da pasta da Cultura no novo Ministério da Cultura, da Juventude e do Desporto não é uma “despromoção”. É uma joint venture.
Os agentes culturais arriscam-se a não compreender por serem demasiado culturais.
Disclaimer: este é o meu ministério. Deixem-me dissertar à vontade. É meu porque tenho estudo e trabalho dedicado ao dito setor da Cultura – e ao da Comunicação Social, que existe sob a mesma tutela. Mas, acima de tudo, porque aprecio múltiplos desportos e ainda porque me obrigam a ser jovem. Por minha vontade, já tinha deixado de o ser, mas insistem tanto que acabo a aceitá-lo para não indispor ninguém. Já me mentalizei de que serei um novato até aos cinquenta, por mais que liquide IRS. Samos jovens. Emoji de mãozinhas.
Para compreender a decisão de destituir o ministério da Cultura, há que pensar com emojis. Os agentes culturais são demasiado Deleuze. Eu explico: se a malta se junta é quando é jovem (Juventude), nos festivais (Cultura) e no vólei de praia (Desporto), é natural que o ministério seja um só.
É tipo uma holding. Ok? Imagina. Tipo: se a Cultura, a Juventude e o Desporto reportarem ao mesmo board, existe uma gestão comum para as pastas da malta. Ok? Pronto. A visão é essa: uma única CEO. Um único Ministério para as pastas da malta. Percebes? Tipo.
Caros profissionais da Cultura, a quem envio desde já um abraço,
Estou convencido de que o atual governo não tem intenção de despromover a Cultura. Está é antes a sua visão de Cultura – que casa bem com a Juventude e o Desporto porque é a área dos eventos. Dos inventos, como se diz em jovem. No glossário das associações de estudantes, é o chamado “Recreativo”. O novo ministério é o Pelouro Recreativo deste governo. Isto não é nada de pessoal.
Não encaixa na visão deste governo a realidade de que a pasta da Cultura não se resume a uma agenda de atividades para ocupação dos tempos livres, mas constitui uma esfera de especialidade e rigor epistemológico. Muito menos a Cultura enquanto domínio matricial, através do qual uma comunidade se reconhece, se reinscreve e se projeta no universo, numa busca contínua do belo, da medida, do sentido. Ou sequer a da Cultura enquanto motor propulsor do desenvolvimento social e económico, de densificação humanista, de qualidade de vida e de vitalidade democrática.
A crítica de que a nova ministra não tem currículo destacado, nem na área da Cultura, nem na área do Desporto, parece não entender que uma CEO não precisa para nada dessas tecnicalidades. O perfil da ministra serve bem a visão global do governo para a pasta.
Em suma, é evidente que também lamento não ver investimento sério nesta área crucial para o futuro do país. O desinvestimento na Cultura em Portugal destaca o país na OCDE pelos piores motivos. Não falo apenas de orçamento, mas de boas políticas públicas, alinhadas com o conhecimento e as boas práticas internacionais. Nem sequer é de agora.
A noção de Cultura que a cola à Juventude e ao Desporto é mais o resultado desse desinvestimento crónico do que a visão que o vai ditar de agora em diante. A Cultura tratada assim na orgânica do governo é uma consequência direta do atraso do País.
Há que ter fé. Menos a de Kierkegaard, que a do Papa Leão XIV. A minha fé assim persiste, inabalável. Talvez sejam as vantagens de ainda ser tão jovem.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.