A série “Adolescence” motivou um debate superficial sobre educação, redes sociais e violência de género. Um triângulo com um centro equidistante: rapazes adolescentes.
Tem sido duro constatar o desconhecimento flagrante destes fenómenos entre a nossa comunidade – pais, professores, comentadores – mas voemos sobre isso. Foi preciso uma série Netflix para que um alarme soasse no espaço público sobre problemas evidentes, estudados, observados e documentados há anos.
Infelizmente também não encontro surpresa – mas antes urgência – na sucessão aterradora de notícias ligadas à violência contra raparigas e mulheres nas últimas semanas. Não é um problema novo, de cifras e emojis, como tem sido tratado. É a ponta do iceberg de um sistema machista secular e à vista de todos, que urge atacar na raiz.
Andrew Tate tem sido tratado como rosto de um fenómeno novo. O influencer acusado de violação e tráfico humano surge como espécie de monstro que anda a desviar os adolescentes nas redes sociais, ensinando-os a ser misóginos e cruéis. Já o citei aqui no passado. Tate é, de facto, figura de proa de uma seita ultrarreacionária que influencia os jovens, mas custa-me vê-lo abordado como problema isolado. Antes vejo nele a hipérbole de um sistema global, no qual todos participamos: um sistema violento, machista, consumista, de competição permanente. O sistema onde vivemos, com o qual compactuamos, levado ao cúmulo numa figura.
Vivemos num modelo que premeia sociopatas. Como Elon Musk esclareceu em entrevista a Joe Rogan, “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”. Eis o mantra que melhor sintetiza a expressão radical da cultura egocêntrica na qual vivemos mergulhados: um modelo em que o respeito pelo outro é visto como desvantagem. E, portanto, choca-me a surpresa. Existe um Tate em cada homem para quem a empatia é uma fraqueza. Tate é o totem do machão implacável, rico, poderoso e sempre pronto para a guerra e, desse prisma, já o trouxe aqui centenas de vezes: há um Tate em Putin, há um Tate em Trump, há um Tate nas figuras idolatradas pela cultura dominante. Tate é apenas uma versão extremada dos ídolos da cultura mainstream, brutos, superficiais e obcecados com dinheiro. Mas vamos aos miúdos.
Por mais generoso ou sensível que seja, um rapaz de doze anos já sabe o que tem de ser para não ser esmagado: implacável. Aos doze anos, já se sentiu humilhado por mostrar fraqueza. Já foi gozado, se não agredido, e já aprendeu a lei da selva: na vida, salva-se o maior e o mais forte. Provavelmente, já vive frustrado e ansioso – como os adultos -, bombardeado por ideais inatingíveis de consumo, de sucesso e de beleza. Já sabe se é atraente, se corresponde ao cânone da virilidade, ou não. Já vê no carro dos seus pais um indicador do sucesso da família e alguém já fez o favor de o informar que o seu pai é um loser. Não é difícil compreender que a imagem grotesca de Andrew Tate, de six-pack ao volante de um Lamborghini, faça caminho. Será assim tão diferente daquilo a que a generalidade das pessoas aspira no modelo atual?
O ideal feminista do homem que recusa a agressividade e é capaz de exprimir emoções não encaixa na ideia dominante do sucesso. O homem sensível, criativo e pacífico não ganha eleições, nem é CEO de empresas – rara a exceção. Qualquer miúdo de doze anos já começou a perceber o esquema. Quem não corresponder, leva. É o ideal masculino reinante, que se torna a cultura reinante. Nenhum miúdo de doze anos vai mudar isso sozinho.
Quando falamos, portanto, de como prevenir a disseminação destas correntes reacionárias, de como formar cidadãos com valores humanistas de justiça social, está em causa a revisão do modelo educativo, da sociedade como um todo. Não basta a “atenção” ou “vigilância” sobre os jovens de quem viu uma série e acordou para vida. Não vale a pena ordenar aos miúdos que não façam tudo aquilo que os seus familiares e os seus professores fazem, permitem e até aplaudem.
Urge refundar a escola, consciencializar famílias e profissionais educativos para os desafios da tecnologia, das redes sociais, das tendências no quadro das subculturas adolescentes, como sempre foi. Há, no entanto, também que trazer ideais de empatia e respeito pelo outro, de liberdade e igualdade de género, para o centro da sociedade, da política e da economia. Há que questionar a ideia de sucesso. O que é afinal o sucesso?
Enquanto o modelo não mudar, Andrew Tate continuará a ter sucesso e a ganhar eleições, com votos de milhões de homens e mulheres, pobres e ricos, doutorados e analfabetos. E continuará a ser o espelho de um sistema que premeia e promove pessoas iguais a ele.
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