Este ano comecei a ter uma nova disciplina: Sociologia. É uma matéria que engloba vários temas, muitos dos quais são uma presença constante na sociedade em que vivemos. Mas houve um que me chamou a atenção. Poderia dizer que tal aconteceu porque foi o título do trabalho de grupo que tive que realizar, para a nota da disciplina em questão. Na verdade foi mais do que isso, e ao longo deste texto vão perceber porquê.
Eu e os colegas que integraram o meu grupo iniciámos um trabalho sobre o fenómeno social do divórcio. Para começar, tenho que vos informar, como já devem desconfiar, que também eu sou filha de pais divorciados.
Tinha doze anos quando a minha mãe nos sentou a mim e ao meu irmão, três anos mais velho, nos sofás de uma sala que já tenho dificuldade em descrever e nos informou da separação. Tal como as memórias da minha casa antiga, na qual vivia antes de todas as mudanças que a notícia trouxe consigo, não me recordo do momento tão bem como seria de esperar. Lembro-me de existirem lágrimas, sim. Mas a verdade é que a realização do que viria a ser realmente um divórcio ainda estava para vir. A minha reação foi desencadeada pela palavra, não pelo fenómeno em si, mas por tudo o que ela significava.
Partindo de uma visão mais pessoal do divórcio, a minha idade não me permitiu questionar e analisar o cenário da mesma maneira que agora sinto conseguir. Assim que as lágrimas secaram, encarei o que se estava a passar com a perspetiva de uma criança, o que me permitiu aligeirar o impacto da perda. Porque a verdade é que o divórcio significa sempre uma perda. Por mais que queiramos tentar contrariar, existe um ideal de família, do pai e da mãe juntos na mesma casa, que é difícil de ultrapassar, de esquecer…e para quem sempre o teve, de abdicar.
Ainda agora, mesmo sentindo-me satisfeita com a minha situação familiar, sinto essa perda e lido diariamente com as suas repercussões.
Ao conversar sobre isto com os restantes elementos do meu grupo, pelo menos aqueles que se encontravam na mesma situação, percebi que não era a única a sentir-me assim, que também eles davam pela falta do quadro familiar que o divórcio torna inalcançável.
Dito isto, no entanto, não me posso esquecer de deixar claro que não considero o divórcio algo de mau. Quando uma relação nos causa mais infelicidade do que o contrário, só é saudável até um certo ponto persistir na sua continuação.
Depois de ultrapassado esse limite, nem mesmo o medo das consequências de tal decisão para os filhos partilhados entre o casal, ou mesmo para os próprios, os devem impedir de a tomar. Ninguém quer viver numa casa de pratos partidos, especialmente na hora do jantar.
Mas retomando a direção que queria seguir, ou seja a minha perspetiva adolescente sobre o que é viver este fenómeno, vou-vos contar as descobertas interessantes que fiz ao realizar este trabalho. Mais de metade da minha turma, de trinta alunos, tem os pais divorciados, todos com experiências diferentes do mesmo fenómeno social.
Ainda assim, existem vários comportamentos comuns perante um divórcio. É normal um adolescente, que já tem maturidade suficiente para as ver, procurar as falhas existentes na relação, nos pais e tentar atribuir culpas. Tanto eu como os meus amigos o fizemos, admitindo até que não nos foi estrangeira a injustiça.
É difícil aceitar que nos roubem algo sem existir um ladrão. E por isso foi mais fácil culpar aqueles que não tinham culpa. Muitos divórcios não acontecem devido a dramáticas traições e erros imperdoáveis. Duas pessoas podem simplesmente deixar de se amar.
E será que isso afeta a minha maneira de ver o amor? Sim, afeta. Obriga-me a aceitar que o amor não é eterno, acaba e é sempre preciso lutar por ele. Não é portanto necessariamente, uma influência negativa exterior que faz com que termine.
Tenho saudades dos tempos em que jantávamos todos juntos. Em que quando dizia “casa”, significava o mesmo para o pai e para a mãe. Penso em todos os momentos que partilhámos em conjunto e lamento a impossibilidade de vivermos mais. Sinto falta da minha casa antiga em que vivíamos todos e das memórias de uma infância cheia e feliz. Sei contudo que o divórcio foi a melhor opção. Porque também sou feliz agora. E os meus pais não tiveram que abdicar da sua felicidade para me oferecerem nada mais do que uma ilusão de uma família ideal que afinal não o é.
Concluindo, espero que o professor de sociologia me dê boa nota e eu possa exigir alguma recompensa aos meus pais. Uma do pai e uma da mãe. E assim dar uso a um dos únicos benefícios de ter os pais separados. Aquela que parece ser a única coisa que os que não têm os pais divorciados dão importância, pedir dois presentes em vez de um.