Setembro traz consigo esta pergunta quase inevitável. Parece banal. Uma forma de meter conversa, de saber do outro, de recuperar o tempo que passou. E, na maior parte das vezes, é mesmo só isso.
Mas há quem sinta desconforto quando chega a sua vez de responder. Sabemos a resposta. O que nem sempre sabemos é como dizê-la sem sentir que devíamos ter uma história melhor.
E, quase sem perceber, começamos a escolher o que contamos. Damos mais importância àquele sítio, dizemos que “foi maravilhoso” quando foi apenas razoável, escolhemos a fotografia mais bonita. Acrescentamos detalhes.
O curioso é que ninguém nos pediu uma versão extraordinária das nossas férias. Fomos nós que aprendemos a sentir que uma resposta banal não chega.
Vivemos rodeados de vidas que parecem ter sempre qualquer coisa para contar: uma viagem, uma experiência e, mesmo sabendo que as redes sociais mostram apenas uma pequena parte da vida de alguém, é difícil não comparar.
É aqui que esta pergunta aparentemente inocente se torna interessante. Porque já não estamos apenas a falar de onde fomos. Estamos a falar do que esse lugar diz sobre nós.
Vezes demais, damos a resposta que melhor protege essa imagem. Não há necessariamente falsidade nisso. Há expectativa e um desejo muito humano de não parecermos menos, de não ficarmos para trás, de sermos vistos como gostaríamos.
Talvez façamos isso porque, algures, aprendemos que há respostas que parecem valer mais do que outras. Que dizer que a relação está ótima é melhor do que admitir que estamos numa fase difícil. É mais confortável dizer que os filhos estão “a ter resultados bons” do que falar das dificuldades na escola. O “está tudo normal” soa melhor do que admitir que o trabalho não está a correr como esperávamos.
O primeiro julgamento vem de dentro, talvez seja por isso que, se já deu por si a embelezar uma história ou a esconder uma dificuldade, não precise de se julgar por isso. É humano querer corresponder.
Podemos começar pelas férias. Podem não ter sido incríveis. Pode ter ficado por casa, trabalhado, descansado pouco ou simplesmente não ter feito nada digno de uma fotografia e está tudo bem com isso.
Os nossos filhos não precisam de estar sempre no topo. Uma relação não precisa de parecer perfeita. O trabalho não precisa de estar sempre a correr bem. A nossa vida não precisa de estar exatamente onde imaginávamos aos 30, aos 40 ou aos 50. Precisamos apenas de conseguir dizer a verdade sem sentir que ela nos diminui.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.