“Eu sei.”
É uma expressão que aparece muitas vezes quando tentamos explicar aquilo que sentimos.
“Eu sei que aquela relação não me fazia bem.”
“Eu sei que ele não vai mudar.”
“Eu sei que aquele comentário não define o meu valor.”
“Eu sei que precisava de sair daquele trabalho.”
“Eu sei que não fiz nada de errado.”
Sabemos. Conseguimos explicar as razões, reconhecer o que aconteceu e, por vezes, até aconselharíamos outra pessoa a fazer exatamente aquilo que fizemos.
Ainda assim, sentimos o contrário. Temos saudades de quem decidimos deixar. Sentimo-nos culpados depois de dizer “não”. Ficamos ansiosos perante uma decisão que pensávamos trazer alívio. Continuamos magoados com alguém de quem já não esperávamos nada.
É aqui que começamos a desconfiar de nós próprios: Se tenho saudades, será que devia voltar? Se sinto culpa, será que fui injusto? Se esta decisão me deixa tão ansiosa, será que tomei a decisão errada?
Estamos habituados a procurar coerência entre aquilo que pensamos e aquilo que sentimos. Esperamos, convictos, que compreender uma situação seja suficiente para alterar a resposta emocional. Mas o cérebro não funciona dessa forma. Saber racionalmente que uma relação terminou, que um limite era necessário ou que uma crítica foi injusta não apaga, de imediato, o vínculo, o medo, o hábito ou a expectativa associada àquela experiência.
Uma emoção não é um veredicto. Sentir saudades não nos manda voltar. A culpa não prova que fizemos alguma coisa errada. A ansiedade não transforma automaticamente uma escolha numa má decisão e a tristeza não significa que devíamos ter ficado.
Uma decisão pode estar certa e continuar a doer. É uma distinção importante, porque passamos muito tempo a tentar corrigir emoções que consideramos incompatíveis com aquilo que racionalmente sabemos. Dizemos a nós próprios que “já devíamos ter ultrapassado”, que “não faz sentido continuar assim” ou que “não temos razões para nos sentir desta forma” e isto só adiciona um segundo problema ao primeiro, que achávamos resolvido.
Por vezes, o sofrimento já nem vem apenas do que sentimos, mas da luta contra o facto de ainda estarmos a sentir.
As emoções têm o seu próprio tempo. Podemos ouvi-las sem lhes entregar todas as decisões. Podemos sentir falta e seguir em frente. Sentir culpa e manter um limite. Ter medo e avançar. Estar triste e continuar a saber que sair foi a escolha certa.
Da próxima vez que aquilo que sente parecer contradizer tudo aquilo que sabe, experimente não procurar imediatamente uma conclusão.
Será que aquilo que estou a sentir é arrependimento ou é apenas o peso de deixar para trás algo em que investi tanto?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.