A 250 km/h, quase não há paisagem. Há estrada, linhas, o carro da frente. Tudo aquilo que o cérebro considera necessário para nos manter em segurança.
Alguns metros à frente, há um acidente. A informação está num painel superior à estrada: trânsito cortado, saída recomendada, percurso alternativo. Mas continuamos concentrados nas linhas para garantir que não batemos.
A solução estava no nosso campo de visão. Só já não tínhamos atenção disponível para a ver.
Há problemas que vivemos exatamente assim. Pode ser uma relação que já não sabemos se queremos continuar, uma proposta de trabalho que exige uma decisão, uma conversa que correu mal ou uma escolha que parece poder mudar tudo. Repetimos cenários, antecipamos consequências, procuramos sinais e voltamos ao início. Pensamos tanto no assunto que começamos a confundir o tempo que lhe dedicamos com a clareza que temos sobre ele.
Sob stress, a atenção estreita-se. O cérebro privilegia aquilo que identifica como urgente e deixa menos espaço para considerar outras informações, alternativas ou perspetivas.
O problema continua no mesmo lugar. O nosso campo de visão é que ficou mais pequeno.
É também por isso que tantos problemas crescem durante a noite. De dia há trabalho, trânsito, conversas, tarefas… Às três da manhã desaparece quase tudo. Fica apenas aquele assunto.
Sem outras coisas a disputar a nossa atenção, uma dúvida transforma-se em várias, uma conversa repete-se dezenas de vezes e uma decisão difícil começa a parecer impossível.
O problema não ficou maior. Ficou sozinho no centro da nossa atenção.
Nesses momentos, ganhar distância pode ser mais útil do que continuar a insistir. Chamamos-lhe distanciamento psicológico: afastarmo-nos mentalmente de uma situação para conseguirmos observá-la de outra perspetiva.
Há uma pergunta simples que ajuda: Se fosse alguém de quem gosto a passar exatamente por isto, o que lhe diria?
É curioso como conseguimos ver com clareza caminhos para os outros que parecem desaparecer quando somos nós a precisar deles. De fora, distinguimos melhor o urgente do importante, aceitamos que nem tudo precisa de ser resolvido naquele momento e encontramos alternativas que a ansiedade não nos estava a deixar considerar.
É certo que parar não resolve o problema por nós, mas devolve-nos a possibilidade de o vermos por inteiro. E, quando voltamos a olhar, podemos descobrir que a saída já estava lá, na paisagem. Só estávamos demasiado concentrados nas linhas para a conseguir ver.
Da próxima vez que um problema ocupar todo o seu campo de visão, pergunte-se: preciso mesmo de encontrar já uma solução ou preciso primeiro de ganhar distância para a conseguir ver?
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.