Nos bancos da universidade, o Algarve, há quase 50 anos, foi muito claro para mim: o território é a expressão visível da geologia – serra, barrocal e litoral. No País davam-se então os primeiros passos em algo novo que nunca aceitámos: Ordenamento do Território. Concluída a formação académica de base, em Geologia Económica e Aplicada, uma novidade pioneira, debandei até ao Algarve, integrado numa equipa do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde os professores já por lá andavam há alguns anos nos seus doutoramentos, entretanto concluídos.
Onze meses por ano, Portugal inclina-se para ocidente. A faixa litoral concentra população, atividade económica, investimento, serviços e oportunidades. O resto, até à fronteira, definha, envelhece e perde população. Mas chega agosto e o País muda de posição.
Durante algumas semanas, Portugal tomba para sul, tudo converge para o Algarve; um verdadeiro irracional trambolhão. Só comparável ao absurdo das centenas de milhões de euros deitados ao mar a pôr areia nas praias.
Poucas regiões portuguesas possuem uma identidade territorial tão clara. A geologia explica-a bem. Quem chega ao Algarve pela A2, pela Nacional 2 ou por qualquer outra estrada percebe rapidamente a organização deste território. Serra, barrocal e litoral surgem como três mundos distintos, alinhados entre o Atlântico e o interior peninsular.
Na serra algarvia encontramos uma transição suave com o Baixo Alentejo. As paisagens, os modos de vida, a arquitetura popular e até a linguagem aproximam-se mais do interior alentejano do que da imagem turística que hoje associamos ao Algarve. Há muitos anos, um pastor da serra disse-me que já não ia ao Algarve há muito tempo. Um filho emigrara para França, o outro tinha ido “para o Algarve”. A frase parecia absurda, mas revelava uma realidade profunda: para muitos habitantes da serra, o Algarve turístico é outro território.
Descendo para sul, surge o Barrocal, a “terra de barro”, uma das paisagens mais fascinantes de Portugal. É a terra dos calcários, das grandes noras, dos pomares tradicionais, das alfarrobeiras, figueiras e amendoeiras. Quem passa na A2 ainda avista grandes chaminés de antigas cerâmicas que testemunham uma atividade económica outrora pujante. A argila é um dos materiais mais extraordinários que a terra produz. Está na origem da agricultura, da construção, da cerâmica, da tecnologia e da vida. É um recurso discreto, complexo, mas civilizacional.
Por fim, o Litoral, diverso; de erosão a barlavento (arribas) e com acumulação a sotavento. Em grande extensão, antes de chegar ao Atlântico, temos ainda a beleza indiscritível, mas esgotada, da ria Formosa, a que acresce umas, quase divinas, ilhas de barreira.
É aqui, no litoral, que quase tudo acontece. O turismo moldou a economia, a paisagem e a ocupação do território. O Algarve tornou-se uma das maiores máquinas turísticas da Europa. O sucesso foi tão grande que acabou por concentrar pessoas, riqueza e investimento numa estreita faixa costeira, deixando para trás grande parte do território interior.
Mas há uma pergunta que importa fazer. O que acontecerá quando o turismo de massas deixar de crescer? Ou quando entrar num declínio estrutural? Não falo de uma crise passageira provocada por uma pandemia, uma guerra ou uma recessão económica. Refiro-me a uma mudança profunda de paradigma. O momento em que o modelo assente na quantidade deixe de ser sustentável, económica, social ou ambientalmente. O Algarve está preparado para esse cenário?
A pergunta é particularmente importante porque Portugal depende muito mais do turismo do que gosta de admitir. Lisboa, Algarve, Porto e Madeira representam a esmagadora maioria da atividade turística nacional. O restante território, embora possua enorme valor patrimonial, natural e cultural, continua a desempenhar um papel residual.
Enquanto há tempo, talvez valha a pena pensar no futuro para lá da próxima época alta. Que atividades económicas podem complementar o turismo? Como revitalizar a serra e o barrocal? Como valorizar a agricultura, a cultura, o património natural, a ciência, a inovação e os recursos locais? Como construir qualidade onde hoje domina a quantidade? É possível ultrapassar dogmas e encarar o golfe como uma séria e sustentável aposta? Como regenerar o litoral?
As grandes civilizações prosperaram quando souberam diversificar as suas fontes de riqueza. Tornaram-se frágeis quando passaram a depender excessivamente de uma única atividade.
No fim, o que vai restar além do barro?
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