A cozinha nunca é neutra. Cada prato é uma síntese do território onde nasce: do clima, do solo, da água disponível, do relevo, da vegetação espontânea e cultivada, mas também do saber acumulado pelas comunidades ao longo do tempo. Comer é, antes de tudo, um ato geográfico.
Vem isto a propósito do lançamento de um interessante projeto Sabores do Tacho com a apresentação do primeiro de sete volumes, um por região. O projeto é da Visual Factory, liderado pelo fotógrafo alentejano Jerónimo Heitor Coelho. Por esta razão natalina, o primeiro volume respeita ao Alentejo e trata da criativa cozinha alentejana fortemente influenciada e inspirada nesta terra.
Portugal é um caso exemplar. Num território pequeno, concentra-se uma extraordinária geobiodiversidade: maciços graníticos e xistosos, planícies aluviais, serras calcárias, vales férteis, zonas húmidas, litoral atlântico exposto e um interior mediterrânico seco.
Esta diversidade física traduz-se diretamente na diversidade agrícola, pecuária, piscatória e, inevitavelmente, gastronómica. Nunca esquecendo o clima, curiosamente também consequente da geologia, os solos graníticos ácidos do Minho favorecem o milho, as hortícolas e o vinho verde; os xistos do Interior sustentam o olival, a vinha e os enchidos; os calcários moldam paisagens de pastorícia e queijos; os estuários e o Atlântico fornecem peixe, sal e algas.
Nada disto é casual. A gastronomia é uma resposta adaptativa ao meio. A chamada “cozinha tradicional” não é um conjunto de receitas folclóricas, mas sim um sistema ecológico-cultural, cumulativo de saberes com milhares de anos, altamente eficiente. Pratos simples, sazonais, baseados em produtos locais, com baixo desperdício e forte integração entre agricultura, floresta e água.
Durante séculos, a alimentação foi regulada pela proximidade, pela escassez e pelo conhecimento profundo do território.
A globalização alimentar quebrou esta ligação. Ingredientes anónimos, absurdas cadeias longas, perda de sazonalidade e homogeneização do gosto fragilizam tanto o território como a cultura. Quando desaparecem as variedades locais, os modos de produção e os pratos associados, perde-se também resiliência ecológica e a identidade.
Recuperar os sabores do território não é um exercício nostálgico. É um ato político e ecológico. Significa valorizar produtos locais, circuitos curtos, cozinhas regionais vivas, antigas e inovadoras, capazes de dialogar com o presente sem romper com o lugar.
A gastronomia é um instrumento central da transição ecológica: aproxima produtores e consumidores, reforça economias locais e reconecta a alimentação aos ciclos naturais. No fundo, cada prato pode contar a história de um rio limpo, de um solo produtivo, de uma paisagem cuidada e de uma cultura viva. A escolha do que comemos é de cada um, comer bem é também cuidar do território.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.