
Lucília Monteiro
À entrada da rua Escura, para quem nela entra pela calçada de Vandoma, existiu, até 1928, ano em que a demoliram, uma capela da invocação de Nossa Senhora do Ferro. O templo tinha este nome porque, antigamente, ao cimo da porta de entrada, tinha um ferro atravessado de uma à outra parede. Diz uma antiga lenda que este ferro fora ali colocado para que se pudesse cumprir um extravagante privilégio que, desde tempos imemoriais, fora concedido à padroeira da capela, não se sabe porque entidade civil ou religiosa. Esse privilégio consistia no seguinte: quando um preso era levado à forca, para pagar com a morte os crimes cometidos, se, ao passar diante da capela, conseguisse deitar uma mão ao ferro da porta, já não era executado. É verdade que o aljube ficava ali perto, à entrada da rua de Sebastião. A forca estava, nesses tempos, lá longe no Bonfim, Senhor do bom fim ou da boa morte… A caminho da forca o padecente tinha, forçosamente que passar diante da capela. Mas não consta de nenhum documento que algum padecente, alguma vez, enquanto a capela esteve de pé, tenha beneficiado desse privilégio. Da capela nada resta. Ficou-nos todavia a tradição e a imagem mutilada da Senhora do Ferro agora guardada no Museu de Arte Sacra a funcionar na igreja de S. Lourenço ou dos grilos.