Esta é a crónica que eu nunca quis escrever. A Nonô, centro dos meus dias e afetos durante 12 anos, 6 meses, 22 dias e 16 horas, partiu. Do diagnóstico oncológico, ao luto antecipatório até à derradeira decisão, foi um sopro e esmagou-me. A Nonô é a minha inseparável cadelinha, filha de coração. Já perdi pessoas para a morte e para a vida, mas a dor incapacitante, anedónica e insuportável da perda da Nonô é de uma dimensão sem par. E, no entanto, os guardiões da normatividade hierárquica dos afetos diriam “é só uma cadela”, deslegitimariam e estigmatizariam a minha dor e luto – se eu lhes permitisse tamanha ignorância. Afinal, o que tem de diferente o luto por perda de um animal?
O luto é uma resposta biopsicoemocional a uma perda muito significativa. É um processo universal da experiência humana, não é (sempre) patologia, é inevitabilidade, com impacto profundo no bem-estar psicológico – sintomas emocionais e cognitivos temporários, que podem ter reflexo físico – e na saúde mental – o stress extremo da perda pode desencadear episódios de depressão, ansiedade, perturbações do sono, etc. – podendo torna-se doença per se, a perturbação de luto prolongado (resposta à perda altamente dolorosa, incapacitante e persiste pelo menos por 12 meses). Existe no luto uma proporção: o papel que quem perdemos tinha na nossa vida. E é aqui que o design social da vida contemporânea nos muda as voltas: para muitíssimos de nós, o animal de estimação é o pilar estrutural de suporte emocional, de propósito diário e de amor incondicional. A Nonô é(ra) a minha tudo.
Relação interanimal. A forma como nos relacionamos com os animais de companhia é uma das mudanças culturais mais interessantes dos últimos dois séculos. Tudo começa com a revolução industrial. Até ali, a vida rural definia-nos relações funcionais, económicas: os cães guardavam gado, propriedade e ajudavam na caça; os gatos controlavam as pragas de roedores. Com a migração massiva para as cidades e apartamentos, cães e gatos ficaram “no desemprego”. Mas a melhoria das condições de vida e as transformações demográficas e emocionais – redução do tamanho e estrutura das famílias, aumento da solidão, maior lifespan –, a ciência dos afetos foi além do reemprego: validou-os como seres sencientes, e a nossa lente moral mudou; provou que são pilares determinantes para o nosso bem-estar e saúde mental, e fizemos deles companhia, apoio e família. A revolução industrial pôs fim às redes de apoio e solidariedade comunitária e exacerbou o individualismo. Em nome do sucesso foi-se a pertença e veio a competição, com revisão em baixa das relações interpessoais: na urbe tornaram-se (mais) transacionais. Isolados, solitários e drenados pela performance social, a existir por entre vazios digitais, demográficos e emocionais, a conexão tornou-se a derradeira commodity do século XXI. Escassa nos humanos, é plena nos animais: amor incondicional, sem agenda, indiferente ao nosso estatuto, sucesso e rendimento. E eis que os cães e gatos – e todas as espécies às quais abriram caminho – nos re-humanizam: a intensidade do laço afetivo é tal que, num mundo onde os agregados unipessoais caminham para os 35%, muitos núcleos familiares têm 6 patas.
Em Portugal vivem mais de 5 milhões de animais de estimação: 3 milhões são cadelas e cães – somos o segundo país da UE com mais cães por habitante (27/100) – e 1,9 milhões gata/os. Mais de 50% dos lares portugueses têm animais de estimação. Cerca de metade dos jovens solteiros e adultos ativos que vivem sozinhos são pet parents: o cão ou gato é o principal foco afetivo da casa. A esperança média de vida dos cães de estimação é 12,5 anos, e dos gatos 17 – no contraste com a nossa, esperam-nos lutos dos mais dolorosos.
A neurociência da relação humano-animal. O nosso cérebro não distingue o laço afetivo com um cão ou gato do laço com um filho, ativando os mesmos circuitos neurológicos. Quando humano e cão fixam olhares, os seus cérebros libertam oxitocina (a hormona do amor) em níveis massivos, gerando bem-estar e intensificando a necessidade de contacto físico e visual – o exato mecanismo neurobiológico que cimenta o apego entre mãe e recém-nascido. Essa interação reduz o medo e o stress, pois ao diminuir a hiperatividade da amígdala (que os processa), faz cair a produção de cortisol (a hormona do stress) e o sistema nervoso desliga o modo de alerta. Os nossos animais são “antidepressivos naturais”: só acariciar o seu pelo estimula a libertação de dopamina e serotonina, ativando o sistema de recompensa do cérebro. O laço afetivo intenso com um animal tem a capacidade neurológica de elevar o limiar da dor física e diminuir a perceção do desconforto (daí a eficácia da terapia assistida por animais em contextos hospitalares e cuidados paliativos).
Luto por perda de um animal. Perante um papel estrutural e afetivo preponderante, o impacto psicológico da perda manifesta-se com gravidade. (1) Crise de identidade e perda de propósito: a ausência de um cão ou gato em torno do qual se estabelece a rotina diária significa a perda do papel de cuidador, que integrou a nossa identidade, o “vazio estrutural” e perda de propósito. (2) Quebra do vínculo de confiança e segurança: os animais dão-nos apego seguro, não julgam ou rejeitam e estão sempre presentes – em contraste com as relações humanas, densas e complexas –, sendo vitais para a nossa regulação emocional; sem o nosso “porto de abrigo”, aumenta o risco de isolamento social, solidão e desregulação face às pressões externas. (3) Risco elevado de depressão e luto patológico face à natureza do vínculo, de dependência emocional mútua, e à culpa obsessiva, sobretudo face a uma decisão de eutanásia ou por não ter percebido os sinais de doença mais cedo. (4) Estigma do luto deslegitimado: a invalidação externa da dor pode levar ao luto secreto e à inação na procura do apoio e ajuda necessários.
A Nonô partiu há 21 dias. Ela ensinou-me tudo o que sei sobre amor, cuidado e resistência. Salvou-me várias vezes, e não é conversa. Tive a sorte desalmada de vivermos juntas toda a sua vida. Nenhuma das minhas pessoas desvaloriza a perda da Nonô, apoiam-me, e encontrei uma psicóloga que se dedica ao apoio psicológico à perda de animal de estimação. E tudo o que queria era não ter escrito esta crónica.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.